LIVRO 6 - Agostinho descobre o Cristianismo

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LIVRO VI

Ao atingir seu trigésimo ano, sob a influência dos discursos de Ambrósio, Agostinho descobriu cada vez mais a verdade da doutrina *católica. Nesse ponto, ele começa a pensar seriamente em como organizar melhor sua vida. (*o catolicismo de Agostinho não é mais encontrado no catolicismo atual)

01 - As lágrimas da minha mãe e a esperança que ressuscita
(01) Tu és a minha esperança desde a juventude. Mas onde estavas, Senhor, quando me perdi de mim mesmo? Foste Tu quem me criaste, quem me separou dos animais da terra e das aves do céu. Tu me deste uma mente mais elevada, e ainda assim eu andava nas trevas, escorregando por caminhos incertos, buscando-Te fora de mim — e não encontrava o Deus do meu coração. Afundei nas profundezas do mar da dúvida, desconfiando e até desesperando de que um dia encontraria a verdade. (02) Minha mãe, cheia de fé, veio ao meu encontro. Atrás de mim, cruzou mares e terras, confiando em Ti em todos os perigos. Quando os marinheiros se amedrontavam, ela é quem os consolava — invertendo o natural —, pois Tu a havias tranquilizado por uma visão, garantindo-lhe nossa chegada em segurança. (03) Ela me encontrou em grande perigo — não físico, mas pela desesperança de um dia encontrar a verdade. Quando contei que já não era mais maniqueu, embora ainda não fosse cristão católico, ela não se deixou levar por uma alegria desmedida. Sabia que uma parte da minha miséria tinha sido superada. E como se me carregasse no esquife das suas orações, esperava o momento em que Tu me dirias: “Jovem, eu te ordeno: levanta-te!” — e eu reviveria, começando a falar, sendo devolvido a ela por Tuas mãos (Lc 7.14-15). (04) Por isso, o coração dela não se agitou em euforia, mas se aquietou na esperança. Tu já tinhas começado a cumprir o que ela, entre lágrimas, Te pedia todos os dias. Eu ainda não havia encontrado a verdade, mas tinha me libertado da mentira. E ela, certa de que Tu completarias o que prometeste, respondeu com serenidade: “Creio em Cristo: antes de morrer, verei meu filho como cristão católico.”
(05) Assim falou a mim. Mas a Ti, ó Fonte de misericórdias, ela derramava orações e lágrimas ainda mais abundantes, pedindo que apressasses o Teu auxílio e iluminasses minha escuridão. Corria com ainda mais fervor à Igreja, bebia com atenção as palavras de Ambrósio, sedenta pela água viva que jorra para a vida eterna (Jo 4.14). E a ele amava como a um anjo Teu, pois por meio dele me conduziste àquela etapa de fé onde, mesmo sem estar curado, eu já tinha deixado o pior da enfermidade — e ela esperava, com esperança firme, que após a febre mais aguda, eu enfim sararia.

02 - A obediência de minha mãe e o vinho que ela renunciou
(01) Certa vez, minha mãe, como era seu costume na África, levou às igrejas erguidas em memória dos santos alguns bolos, pães e vinho. Mas foi impedida de entrar com esses itens pelo porteiro. Ao saber que o próprio bispo havia proibido tal prática, ela aceitou com tanta piedade e prontidão sua orientação, que eu mesmo me espantei ao ver com que facilidade ela repreendeu a si mesma, em vez de contestar a ordem. (02) O apego ao vinho não aprisionava seu coração. Ela não se deixou levar pela paixão da bebida a ponto de se revoltar contra a verdade — como acontece com tantos, homens e mulheres, que reagem com fúria à mínima lição de sobriedade, como bêbados ofendidos com um gole de água misturado ao vinho. (03) Quando ela levava seu cesto com os alimentos tradicionais, era apenas para provar um pouco e depois distribuir. Nunca levava mais que uma pequena taça de vinho, diluído segundo seus hábitos sóbrios, e mesmo assim, só o provava por cortesia. Visitando várias igrejas dedicadas aos santos, usava essa mesma taça única em todas, já aguada e até morna pelo trajeto, repartindo em pequenos goles com os que a acompanhavam. O que buscava ali não era prazer, mas devoção.
(04) Quando descobriu que aquele costume, ainda que praticado com moderação, fora proibido por aquele célebre pregador e piedoso pastor — para não dar pretexto aos que abusam do vinho, e por se assemelhar demais aos rituais pagãos de finados —, ela renunciou sem hesitar. No lugar do cesto com frutos da terra, passou a oferecer nos altares dos mártires um coração cheio de preces purificadas e generosidade para com os pobres. Assim se celebrava com verdade a comunhão do Corpo do Senhor, justamente onde os mártires, imitando Sua Paixão, haviam sido imolados e coroados. (05) Mas, Senhor meu Deus, diante de Ti confesso: penso que talvez ela não tivesse abandonado tão prontamente esse costume se a proibição viesse de outro que não Ambrósio. Pois o amava intensamente — por minha salvação — e era por ele igualmente amada, por sua fé viva e irrepreensível conduta. Ele mesmo, quando me via, não continha os louvores à minha mãe, felicitando-me por tê-la. Mal sabia ele que tipo de filho ela tinha em mim: um que ainda duvidava de tudo isso, e não enxergava como encontrar o caminho da vida.

03 - O silêncio de Ambrósio e minha sede por disputa
(01) Ainda não gemia nas minhas orações pedindo que Tu me socorresses, Senhor. Todo o meu espírito estava voltado para o saber, inquieto por discutir, por debater. Eu via Ambrósio como o mundo costuma ver: um homem feliz, admirado por pessoas importantes. Apenas sua vida celibatária me parecia dura e sacrificada. (02) Mas eu não fazia ideia da esperança que ele carregava no peito, das lutas secretas contra as tentações que rondavam até mesmo suas virtudes, nem das consolações que encontrava nas tribulações. Tampouco imaginava a doçura do Teu Pão saboreado pela boca invisível de sua alma, ruminando-o no coração. Eu nada disso compreendia, pois nem suspeitava, nem experimentava. (03) Ele também não conhecia o que se passava em mim — os fluxos incertos dos meus sentimentos, nem o abismo do meu perigo interior. Eu não conseguia lhe perguntar o que queria, como queria. O acesso a ele era dificultado pela multidão que o cercava, a quem ele atendia com paciência. Quando tinha um raro momento de folga, ou se alimentava para sustentar o corpo, ou se refugiava na leitura para renovar a mente. (04) Quando o víamos lendo, seus olhos percorriam silenciosamente as páginas, e seu coração buscava o sentido do texto, mas sua boca e sua língua permaneciam quietas. Muitas vezes chegávamos — pois ele não proibia a entrada de ninguém, nem exigia que o anunciassem — e o encontrávamos lendo em silêncio. E ali ficávamos sentados, em silêncio também. Ninguém ousava interromper alguém tão concentrado. (05) Acabávamos por nos retirar, imaginando que ele aproveitava aqueles raros momentos sem ruído para recuperar as forças da alma, e não queria ser interrompido. Talvez temesse que, se algum autor lido expressasse algo obscuro, um ouvinte curioso ou confuso o pedisse explicações, e isso o privaria do tempo para folhear os livros que desejava conhecer. Embora talvez a verdadeira razão fosse o cuidado com a voz, que um breve esforço já enfraquecia. (06) Seja qual for o motivo, naquele homem de Deus, esse hábito era bom — e revelava uma sabedoria que eu ainda não compreendia.

04 - Contra as caricaturas que combati e a Palavra que começa a brilhar
(01) Eu não tinha como abrir meu coração diante daquele Teu santo oráculo — o peito de Ambrósio — a não ser para questões que pudessem ser respondidas rapidamente. Mas o que eu queria despejar exigia tempo e escuta, e esse tempo nunca se abria. Ouvia-o, sim, aos domingos, quando pregava a Palavra da Verdade diante do povo. E cada vez mais me convencia de que todos aqueles nós criados pelas calúnias astutas dos nossos enganadores contra as Escrituras divinas podiam, um a um, ser desatados. (02) Descobri, com surpresa e alívio, que os Teus filhos espirituais — nascidos da graça no seio da Mãe Católica — não acreditavam que “o homem criado por Ti à Tua imagem” significasse que Tu, Senhor, tens forma humana (Gn 1.27). Isso era o que eu pensava que eles criam. E embora eu ainda não tivesse a menor noção do que seria uma substância espiritual, senti alegria e vergonha ao mesmo tempo, ao perceber que por tantos anos eu não havia atacado a fé católica em si, mas apenas uma caricatura grosseira — fruto da imaginação carnal. (03) Fui tão imprudente e irreverente que afirmei e condenei o que eu deveria ter buscado entender com humildade. Pois Tu, Altíssimo, estás tão próximo quanto oculto, tão secreto quanto presente. Tu não tens membros maiores ou menores; Tu não tens corpo, e ainda assim estás todo em toda parte e em parte alguma do espaço. E mesmo sem forma corporal, criaste o homem à Tua imagem — e ele, da cabeça aos pés, está contido no espaço.

05 - A vergonha da minha arrogância e o começo da minha conversão
(01) Eu não sabia, Senhor, como subsistia Tua imagem no homem. E, ignorando isso, eu deveria ter batido à porta da sabedoria, proposto a dúvida, buscado entender com humildade — e não zombado como se estivesse refutando algo que de fato era crido. Quanto mais o meu coração era corroído pela dúvida sobre o que, afinal, deveria aceitar como certo, mais me envergonhava por ter sido enganado por tanto tempo com a promessa de certezas — e por ter falado, com a arrogância infantil, sobre tantas incertezas como se fossem verdades. (02) Depois descobri que eram falsidades. Mas mesmo antes disso, já estava certo de que não eram seguras, e que eu as tinha considerado certezas no passado. Na minha cegueira teimosa, acusei Tua Igreja Católica de ensinar erros — e agora percebia que, se ainda não a entendia como mestra da verdade, pelo menos sabia que ela não ensinava aquilo que eu injustamente lhe atribuía. (03) Fiquei confundido... e comecei a me converter. Alegrei-me, meu Deus, por descobrir que Tua única Igreja — o corpo do Teu Filho Unigênito, onde recebi o nome de Cristo ainda menino — não alimentava fantasias infantis. Na sua doutrina sólida, ela não ensinava que Tu, Criador de tudo, estavas confinado no espaço, como se pudesses ser delimitado, por maior que fosse o espaço, nos contornos de uma forma humana.

06 - A medicina da fé e a cura que eu temia
(01) E me alegrei também, Senhor, por ver diante de mim as antigas Escrituras — a Lei e os Profetas — já não com aquele olhar zombeteiro com que antes as lia, achando-as absurdas. Antes, eu insultava Teus santos por, supostamente, pensarem como eu imaginava. Mas agora via que não era assim. E ouvia com alegria Ambrósio, em suas pregações ao povo, insistir com zelo naquela regra: “A letra mata, mas o Espírito vivifica” (2Co 3.6). Ele abria o véu do mistério e revelava, em espírito, sentidos que pareciam errôneos se tomados ao pé da letra. (02) Nada do que ele dizia me ofendia, embora eu ainda não soubesse se o que ele ensinava era verdadeiro. Por cautela, eu mantinha o coração sem dar assentimento. Tinha medo de despencar outra vez. Mas essa hesitação, esse permanecer suspenso entre o sim e o não, me matava ainda mais. Eu queria ter a mesma certeza nas coisas invisíveis que tinha ao saber que sete mais três são dez. (03) Não era louco a ponto de duvidar de verdades tão evidentes. Mas desejava que tudo — fosse material e distante dos sentidos, fosse espiritual e além da minha compreensão — tivesse a mesma clareza. E como minha mente só sabia imaginar o espiritual como se fosse corpóreo, eu não sabia conceber de outro modo. E no entanto, era pela fé que eu poderia ser curado — crendo, meus olhos interiores seriam purificados e começariam a enxergar Tua verdade, que permanece sempre e jamais falha. (04) Mas como quem já confiou num mau médico e agora teme até os bons, assim estava minha alma. Ela não podia ser curada senão crendo, mas com medo de crer em mentiras, recusava o remédio da fé. Resistia às Tuas mãos, Senhor, que preparaste a medicina para as doenças do mundo inteiro, e lhe destes tão grande autoridade.

07 - A razão da fé e o toque suave da Tua mão
(01) Sendo conduzido, aos poucos, a preferir a doutrina católica, percebi que nela havia mais humildade e honestidade. Pois ela pedia que se cresse em verdades que não eram demonstradas — talvez porque pudessem ser demonstradas, mas não para todos, ou talvez nem pudessem sê-lo —, enquanto entre os maniqueus zombava-se da nossa fé com a falsa promessa de conhecimento certo, ao passo que nos impunham as mais fabulosas e absurdas crenças justamente por não poderem ser provadas. (02) Tu, Senhor, com Tua mão suave e misericordiosa, foste tocando e pacificando meu coração. Foste me convencendo com ternura, ao me mostrares quantas coisas eu acreditava sem ter visto, nem presenciado. Quantos relatos da história secular! Quantas informações sobre cidades e lugares onde nunca estive! Quantas coisas ouvi de amigos, de médicos, de tantas pessoas! E se não crêssemos nessas coisas, a vida humana simplesmente pararia — nada se poderia fazer. (03) E, por fim, com quanta certeza eu acreditava quem eram meus pais! Algo que jamais poderia provar por mim mesmo, mas que aceitava com plena confiança, porque me fora dito. Diante de tudo isso, Tu me persuadiste de que não são os que creem em Tuas Escrituras — estabelecidas com tamanha autoridade entre quase todas as nações — que devem ser acusados, mas sim os que não creem. (04) E não devia dar ouvidos àqueles que me perguntavam com desdém: “Como sabes que essas Escrituras foram transmitidas ao mundo pelo Espírito do Deus único e verdadeiro?” Pois justamente isso era o que mais merecia fé. Nenhuma disputa blasfema, por mais sofisticada, entre os tantos filósofos que li — contradizendo-se entre si — conseguiu arrancar de mim esta convicção: que Tu existes, seja lá o que fores, e que o governo das coisas humanas está em Tuas mãos.

08 - A Escritura que acolhe a muitos e conduz os que buscam
(01) Essa fé em Ti — de que existes e de que cuidas de nós — nunca me abandonou por completo. Às vezes era mais firme, outras mais fraca, mas sempre esteve ali. No entanto, eu ainda ignorava o que pensar sobre Tua substância e não sabia qual era o caminho que levava até Ti ou de Ti retornava. Como éramos fracos demais para alcançar a verdade por meio de raciocínios abstratos, mais do que nunca vi o quanto precisávamos da autoridade das Escrituras Sagradas. (02) Comecei, então, a crer que Tu nunca terias concedido tamanha autoridade àquela Escritura em tantas terras, se não quisesses ser crido e buscado por meio dela. Muitas passagens que antes me soavam estranhas e ofensivas, ao ouvi-las explicadas de modo satisfatório, aprendi a remeter ao abismo dos mistérios divinos. E quanto mais a compreendia, mais venerável ela me parecia — mais digna de fé —, justamente por unir a simplicidade acessível à profundidade inesgotável. (03) Ela se abria a todos com palavras simples e humildes, e ao mesmo tempo guardava, em seu sentido mais profundo, a majestade dos Teus mistérios. Assim, abraçava a muitos com sua linguagem acessível, mas desafiava os mais atentos a irem além, exigindo deles o esforço do coração. E por isso mesmo ela podia acolher todos em seu seio aberto, e conduzir, pelos estreitos caminhos do espírito, alguns — não tantos quanto o mundo almeja, mas muito mais do que haveria, se não estivesse sustentada por tamanha autoridade e não atraísse multidões com sua santa humildade. (04) Assim eu pensava, e Tu estavas comigo. Eu suspirava, e Tu me escutavas. Eu vacilava, e Tu me guiavas. Eu vagava pela larga estrada do mundo, e ainda assim, Tu não me abandonaste.

09 - O mendigo feliz e a vara da Tua correção
(01) Eu suspirava por honras, lucros, casamento — e Tu, Senhor, zombavas dos meus desejos. Em cada uma dessas buscas, sofri amargas frustrações, e quanto mais frustrado eu era, mais percebia que era Tua misericórdia impedindo que eu encontrasse doçura em algo que não fosses Tu. Eis o meu coração, ó Deus, Tu que queres que eu me lembre de tudo isso e Te confesse. Agora que libertaste minha alma daquele visgo de morte, deixa que ela se una a Ti. Quão miserável ela era! E Tu, com zelo, provocaste a dor da ferida, para que ela abandonasse tudo e se voltasse a Ti — Tu, que estás acima de tudo, e sem quem tudo é nada —, e voltando-se, fosse curada. (02) Que miséria a minha, e como agiste para que eu a percebesse naquele dia em que me preparava para recitar um elogio ao imperador — um discurso cheio de mentiras — pelas quais seria aplaudido por quem sabia que eu mentia. Meu coração fervia de ansiedade, febril de pensamentos que me consumiam. (03) Ao passar por uma rua de Milão, vi um mendigo. Parecia saciado, brincando e feliz. E eu suspirei, comentando com os amigos ao meu lado sobre a loucura dos nossos tormentos. Pois todo o esforço que eu fazia — arrastando, sob o chicote do desejo, o peso da minha própria miséria — visava alcançar justamente aquilo que aquele homem já parecia ter alcançado: uma breve alegria. (04) Aquilo que ele obteve com algumas moedas pedidas, eu tentava conquistar com caminhos tortuosos e trabalhosos: uma felicidade passageira. Ele não tinha a verdadeira alegria, mas eu buscava uma ainda mais falsa. Ele estava alegre; eu, angustiado. Ele sem preocupação; eu, cheio de temores. (05) Se alguém me perguntasse se eu preferia estar alegre ou cheio de medo, responderia que preferia estar alegre. Mas se me perguntassem se preferia ser como ele ou como eu era naquele momento, eu escolheria ser eu mesmo — consumido por cuidados e medos. Uma escolha injusta, um juízo errado. (06) Pois por que me achava superior? Por ser mais instruído? Mas que alegria havia nisso, se todo o meu saber servia apenas para agradar os homens — não para ensiná-los, mas só para receber aplausos? Por isso, Senhor, quebraste meus ossos com a vara da Tua correção (Sl 51.8).

10 - A falsa glória e a alegria que me escapava
(01) Afasta, Senhor, da minha alma aqueles que lhe dizem: “Mas importa de onde vem a alegria do homem. A daquele mendigo vinha da embriaguez; a tua era a busca da glória.” Que glória, Senhor, senão aquela que não está em Ti? Assim como a alegria dele não era verdadeira, a minha glória também não era — e pesava ainda mais sobre a minha alma. Ele, naquela mesma noite, haveria de digerir o vinho; mas eu dormia e acordava com o peso do meu vazio, e assim seguiria dormindo e despertando por quantos dias? Só Tu o sabes, ó Deus. (02) Sim, “importa de onde vem a alegria do homem”. E eu sei disso. A alegria de uma esperança firme em Ti está infinitamente acima de toda essa vaidade. E, de certo modo, naquele momento o mendigo estava acima de mim: ele era mais feliz. Não só porque se deixava afogar numa alegria passageira, enquanto eu me consumia por dentro em cuidados, mas porque ele conseguira seu vinho por meio de desejos simples; e eu, por mentiras, buscava um louvor vazio e inflado. (03) Disse isso a meus amigos naquele tempo. E muitas vezes observava como eu mesmo me sentia — e constatava: estava mal. E essa constatação me entristecia ainda mais, dobrando o meu mal. E mesmo quando alguma prosperidade parecia sorrir para mim, eu hesitava em estender a mão — pois quase sempre, antes que eu pudesse segurá-la, ela já havia desaparecido.

11 - A amizade que salva e o risco do Circo
(01) Estas coisas lamentávamos juntos, nós que vivíamos como amigos. Mas sobretudo, e com mais intimidade, falava delas com Alípio e Nebrídio. Alípio era da mesma cidade que eu, nascido de família nobre, embora mais jovem. Tinha sido meu aluno, tanto quando comecei a ensinar em nossa terra natal quanto depois, em Cartago. Ele me amava muito, pois eu lhe parecia gentil e instruído; e eu o amava por sua inclinação tão notável para a virtude, admirável em alguém tão jovem. (02) No entanto, o redemoinho dos costumes cartagineses — onde os espetáculos do Circo eram uma febre — o havia arrastado àquela loucura. Enquanto ele se deixava arrastar miseravelmente por esse vício, e eu, ensinando retórica em Cartago, tinha ali minha escola pública, ele ainda não frequentava minhas aulas, por causa de um desentendimento entre seu pai e eu. (03) Descobri então o quanto ele estava obcecado pelo Circo, e fiquei profundamente triste ao ver que alguém com tanto potencial parecia perdido — ou talvez já estivesse. Mas não tinha meios de aconselhá-lo, nem como forçá-lo a se afastar daquele caminho, seja pela amizade, seja pela autoridade de mestre. Presumia que ele pensava de mim como seu pai pensava. No entanto, não era assim. (04) Deixando de lado o julgamento do pai, Alípio passou a me cumprimentar, às vezes aparecia em minhas aulas, escutava um pouco e se ia.

12 - O toque divino em Alípio e a falsa virtude dos maniqueus
(01) Eu, porém, havia me esquecido de adverti-lo — para que não desperdiçasse sua inteligência tão promissora, entregue ao desejo cego e impetuoso de divertimentos vazios. Mas Tu, Senhor, que guias tudo o que criaste, não o esqueceste. Tu, que o destinavas a ser um dia Teu filho, sacerdote e ministro do Teu Sacramento, decidiste curá-lo — e para que ficasse claro que a obra era Tua, usaste-me sem que eu sequer percebesse. (02) Certo dia, eu estava sentado em meu lugar habitual, ensinando, com os alunos diante de mim. Alípio entrou, cumprimentou-me, sentou-se e prestou atenção ao tema que eu explicava. Por acaso, enquanto comentava um trecho, usei como comparação uma cena das corridas do Circo — algo que tornaria a explicação mais clara e agradável — e aproveitei para lançar uma ironia mordaz contra aqueles que estavam escravizados por essa loucura. Senhor, Tu sabes que eu não pensei nem por um instante em curar Alípio com aquelas palavras. (03) Mas ele as recebeu como se fossem dirigidas exclusivamente a ele. E o que para outro seria motivo de ofensa, para aquele jovem de espírito reto se tornou ocasião de confrontar a si mesmo e de amar-me ainda mais. Pois Tu já tinhas dito, e deixado escrito em Teu Livro: “Repreende o sábio, e ele te amará” (Pv 9.8). (04) Mas eu não o repreendi — foste Tu. Tu, que usas tudo e todos, conscientes ou não, segundo a ordem que só Tu conheces, e que é justa. Fizeste do meu coração e da minha boca carvões acesos, com os quais inflamaste aquele espírito promissor que estava murchando. E assim o curaste.
(05) Que se cale, pois, diante de Ti, quem não considera Tuas misericórdias! Eu, do fundo da alma, Te louvo por elas. Pois Alípio, ao ouvir aquele comentário, saiu em um rompante daquele abismo em que se lançara voluntariamente, cego pelos encantos miseráveis do Circo. Reergueu-se com firmeza de espírito, e toda a sujeira daqueles espetáculos voou para longe dele. Nunca mais voltou lá. (06) E logo conseguiu convencer seu pai, mesmo relutante, a deixá-lo ser meu aluno. O pai cedeu. E Alípio, retomando seus estudos comigo, acabou se envolvendo na mesma superstição em que eu estava preso: o maniqueísmo. Encantava-se com aquela aparência de continência que julgava sincera e verdadeira — quando, na verdade, era uma continência enganadora e vazia, que seduzia almas preciosas, incapazes ainda de alcançar a verdadeira virtude, mas facilmente iludidas pelo brilho de uma virtude falsa e superficial.

13 - A queda de Alípio no anfiteatro e a Tua mão que salva
(01) Alípio, sem abandonar a carreira secular à qual seus pais o haviam seduzido, foi antes de mim para Roma, estudar direito. Lá, foi tragado com inacreditável paixão pelos espetáculos de gladiadores. E pensar que antes ele os detestava profundamente! Mas certo dia, por acaso, encontrou alguns colegas à saída de um jantar. Eles, com a força da intimidade, arrastaram-no — mesmo com sua resistência veemente — para o anfiteatro onde se davam aqueles jogos cruéis e mortais. (02) Ele protestava: “Ainda que levem meu corpo até lá e me obriguem a me sentar, não poderão forçar minha mente ou meus olhos a assistirem! Estarei ausente em presença, e vencerei a vocês e ao espetáculo.” Eles o levaram mesmo assim, talvez curiosos para ver se ele conseguiria cumprir o que dizia. (03) Quando se acomodaram, e o local se inflamou com o entusiasmo selvagem do povo, Alípio fechou os olhos e impôs à mente o veto de se entregar àquela maldade. Ah! se ao menos tivesse tapado os ouvidos também! Pois no momento em que um dos gladiadores caiu ferido, um clamor poderoso da multidão atingiu-o com força. Curioso, e querendo talvez provar que desprezaria o que visse, ele abriu os olhos — e foi ferido na alma com golpe mais profundo do que aquele que caíra no corpo.
(04) Alípio caiu de modo mais miserável do que o próprio gladiador. Aquele grito do povo entrou pelos ouvidos, rompeu sua resistência, abriu caminho para a visão — e a visão o lançou por terra. Sua alma ousava mais do que podia, e por confiar em si mesmo, e não em Ti, era fraca. Assim que viu o sangue, bebeu junto a selvageria. Seus olhos não se desviaram — fixaram-se, sedentos. E o coração se embriagou daquela luta culpada. Já não era o mesmo que entrara ali: tornara-se um com a multidão, um dos que o haviam arrastado. (05) Que mais dizer? Ele viu, gritou, inflamou-se — e saiu de lá levando consigo a loucura que o faria voltar, não só com os mesmos que o levaram, mas até antes deles, e ainda atraindo outros. E, no entanto, Tu, Senhor, com Tua mão fortíssima e misericordiosa, o arrancaste de lá — e o ensinaste a confiar não em si, mas somente em Ti. Mas isso viria depois.

14 - A falsa acusação e a lição da justiça
(01) Mas tudo isso já era depositado em sua memória como um remédio futuro. Assim também foi aquele episódio em que, ainda estudante meu em Cartago, Alípio, ao meio-dia, no mercado, ensaiava de cor o que iria recitar — como os alunos costumam fazer — e foi surpreendido pelos guardas do mercado, acusado de ladrão. (02) Ó nosso Deus, não creio que tenhas permitido isso senão por um fim pedagógico: o de ensinar a quem viria a ser um grande homem que, ao julgar causas, o ser humano não deve condenar seu semelhante com base em suspeitas apressadas. Pois, enquanto andava sozinho diante do tribunal com seu caderno e pena, um jovem — verdadeiro ladrão e estudante de direito — entrou sorrateiramente sem que Alípio o visse, portando um machado. (03) O ladrão aproximou-se das grades de chumbo que cercavam as lojas dos ourives e começou a cortá-las. O som do machado chamou a atenção dos ourives, que se agitaram e mandaram alguém prender quem quer que estivesse ali. O ladrão, ao ouvir as vozes, fugiu apressado, deixando o machado para trás, com medo de ser pego em flagrante. (04) Alípio, que não vira o ladrão entrar, mas percebeu sua fuga, curioso para entender o que se passava, entrou no local. Viu o machado abandonado, aproximou-se e ficou parado, surpreso, examinando o objeto. Foi nesse momento que chegaram os enviados dos ourives, e o encontraram sozinho, com o machado nas mãos — justamente aquele que causara o barulho e os trouxera até ali. (05) Agarraram-no, levaram-no à força e, reunindo os comerciantes do mercado, vangloriaram-se de ter capturado um ladrão notório. E assim ele era conduzido para ser apresentado ao juiz.

15 - A verdade revelada e a formação do juiz de Deus
(01) Mas até ali se estendia a lição que Alípio precisava aprender. Pois logo, Senhor, Tu vieste em socorro da sua inocência — Tu, que eras o único verdadeiro testemunho dela. Enquanto o levavam para a prisão ou para o castigo, encontraram-se com um arquiteto, responsável pelas obras públicas da cidade. Alegraram-se de encontrá-lo justamente a ele, que costumava suspeitar daqueles guardas de roubos no mercado, como se enfim pudessem mostrar-lhe o verdadeiro culpado. (02) Mas esse arquiteto já havia visto Alípio várias vezes na casa de um senador, a quem o jovem visitava com frequência por respeito. Ao reconhecê-lo de imediato, tomou-o pela mão, separou-o da confusão, perguntou o que estava acontecendo e, ao ouvir toda a história, ordenou que todos os presentes — apesar da gritaria e ameaças — o acompanhassem. (03) Chegaram então à casa do jovem que cometera o crime. E diante da porta estava um menino, pequeno o suficiente para não imaginar que trairia seu senhor — e por isso não hesitaria em contar tudo. Ele havia acompanhado o patrão até o mercado. Alípio, ao reconhecê-lo, indicou-o ao arquiteto. Este mostrou o machado ao menino e perguntou: “De quem é isto?” E ele respondeu prontamente: “É nosso.” E sendo mais questionado, revelou todo o ocorrido. (04) Assim, o crime foi devidamente atribuído à casa do verdadeiro culpado, e a multidão — que já começava a injuriar Alípio — se encheu de vergonha. E Alípio, aquele que um dia haveria de ser ministro da Tua Palavra e julgador de muitas causas em Tua Igreja, retirou-se dali mais experiente e mais instruído, pela Tua providência.

16 - A integridade de Alípio e sua fidelidade nas pequenas coisas
(01) Foi assim que reencontrei Alípio em Roma — e ali ele se uniu a mim com um vínculo fortíssimo. Seguiu comigo até Milão, tanto para não se separar de mim quanto para exercer, ao menos em parte, a advocacia que estudara — mais para agradar aos pais do que a si mesmo. Em Milão, serviu três vezes como assessor jurídico, com uma integridade que causava espanto nos demais — ao passo que ele se admirava era de quem preferia o ouro à honestidade. (02) Sua virtude foi testada não só pelo apelo da ganância, mas também pelo aguilhão do medo. Em Roma, assessorava o conde do Tesouro da Itália, quando um senador muito influente — temido por muitos e favorecedor de outros tantos — exigiu que se aprovasse algo contrário às leis. Alípio resistiu. Ofereceram-lhe suborno — ele desprezou com todo o coração. Ameaçaram-no — ele pisou nas ameaças com desprezo. (03) Todos se espantavam com tamanha firmeza: um espírito que não buscava a amizade nem temia a inimizade de alguém tão poderoso, famoso por seus muitos meios de fazer o bem ou o mal. O próprio juiz, de quem Alípio era conselheiro, embora também contrário à exigência, não a recusou diretamente — apenas adiou a decisão, dizendo que não permitiria que Alípio fizesse aquilo. Pois se o juiz tivesse cedido, Alípio ainda assim teria julgado de modo contrário. (04) Apenas uma vez quase se deixou seduzir, por um detalhe acadêmico: pensou em conseguir livros copiados a preço de oficial por meio da sua posição no Pretório. Mas, consultando a justiça, reconsiderou. Preferiu a equidade que o impedia a um poder que o permitiria. Coisa pequena, talvez. Mas quem é fiel no pouco, também o será no muito (Lc 16.10). E não pode ser vão o que saiu da boca da Tua Verdade: “Se não fostes fiéis no alheio, quem vos dará o que é vosso?” (Lc 16.12). (05) Sendo assim, esse homem caminhava ao meu lado — e junto comigo, ainda indeciso, buscava qual rumo de vida deveríamos tomar.

17 - Três corações famintos por verdade
(01) Também Nebrídio estava conosco — ele que deixara sua terra natal, perto de Cartago, e até mesmo a própria Cartago, onde vivera por muito tempo. Abandonou sua casa, sua herança, e até sua mãe — que não pôde acompanhá-lo —, e foi a Milão unicamente para viver comigo em busca ardente da verdade e da sabedoria. (02) Como eu, ele suspirava; como eu, vacilava. Era um buscador apaixonado da vida verdadeira, e examinador sagaz das questões mais difíceis. Assim éramos nós: três bocas famintas, confessando entre si suas carências, e esperando por Ti, Senhor, para que nos desses o alimento no tempo certo (Sl 145.15). (03) E em toda a amargura que, por Tua misericórdia, se seguia aos nossos empreendimentos mundanos, olhávamos para o fim das coisas, tentando entender por que sofríamos tanto — e tudo o que víamos era escuridão. Voltávamos o rosto, gemendo, perguntando: “Até quando isso continuará?” (04) Dizíamos isso muitas vezes. Mas, mesmo dizendo, não abandonávamos aquele modo de vida, pois ainda não surgira diante de nós uma certeza luminosa, algo novo que pudéssemos abraçar de fato no lugar daquilo que hesitávamos em largar.

18 - A procrastinação da alma e o peso das desculpas
(01) E eu, revendo minha história, me espantava com o tempo decorrido desde o meu décimo nono ano — quando começou em mim o fogo do desejo pela sabedoria. Nessa época, já decidira: quando a encontrasse, abandonaria todas as esperanças vãs e os delírios ilusórios dos desejos passageiros. E eis que já chegara aos trinta anos — ainda atolado no mesmo lamaçal, ávido por desfrutar o presente, que passava e consumia minha alma. (02) Dizia a mim mesmo: “Amanhã eu a encontrarei; ela se revelará, e eu a tomarei com as mãos! Fausto, o maniqueu, virá e esclarecerá tudo! Ó grandes homens, ó acadêmicos, então é verdade que não há certeza alguma para guiar a vida? Não! Vamos buscar com mais diligência, sem desistir. Veja: já não achamos absurdos os livros da Igreja, como antes pareciam; eles podem ter outro sentido — um bom sentido. Ficarei onde meus pais me colocaram quando criança, até que a verdade clara se revele.” (03) Mas onde buscá-la? Quando? Ambrósio não tem tempo. E nós também não temos tempo para ler. Onde encontraremos os livros? Como e quando os obteremos? De quem os tomar emprestados? Devemos marcar horários fixos, dedicar tempos certos para a saúde da alma. (04) Uma grande esperança já despontou: a fé católica não ensina o que pensávamos, e que acusávamos injustamente. Seus membros instruídos consideram uma blasfêmia crer que Deus tenha a forma de um corpo humano. E ainda hesitamos em bater, para que o restante nos seja aberto? (Mt 7.7). (05) As manhãs são tomadas pelos alunos — e nas outras horas, o que fazemos? Por que não aproveitá-las assim? Mas então, quando agradaremos os nossos protetores influentes, de quem dependemos? Quando escreveremos o que vendemos aos estudantes? Quando descansaremos a mente desse fardo tão intenso? (06) Assim a alma se enredava nas próprias desculpas. E quanto mais a luz da verdade se aproximava, mais eu protelava o passo decisivo — preso entre as vozes da esperança e do hábito.

19 - A guerra interior entre a verdade e o mundo
(01) “Que pereça tudo! Rejeitemos essas vaidades vazias e nos dediquemos unicamente à busca da verdade! A vida é vã, a morte é incerta — e se ela nos surpreender de repente, em que estado partiremos deste mundo? Onde aprenderemos o que aqui negligenciamos? Não sofreremos, antes, o castigo por essa negligência? Mas e se a própria morte encerrar tudo, extinguindo todo cuidado e sensação? Então isso deve ser averiguado. Mas, Deus nos livre que seja assim! Não é em vão — nem coisa oca — que a autoridade excelsa da fé cristã tenha se espalhado por toda a terra. Nunca terias, ó Deus, realizado coisas tão grandes, se com a morte do corpo a alma também deixasse de viver.” (02) “Por que então tardar em abandonar as esperanças mundanas e entregar-nos totalmente à busca de Deus e da vida bem-aventurada?” Eu perguntava a mim mesmo, inflamado por uma resolução súbita. Mas logo vinha o contra-ataque dos velhos apegos: “Espera! Essas outras coisas também são agradáveis, têm sua doçura — e não pequena. Não se devem abandonar de qualquer maneira, pois seria vergonhoso voltar atrás depois.” (03) E então o mundo sussurrava: “Ora, já não falta tanto para alcançar uma posição estável. E depois disso, o que mais desejaríamos? Temos amigos influentes em abundância; e se nada mais aparecer e estivermos com pressa, ao menos um cargo de presidência pode nos ser dado. E uma esposa com algum dote, que não aumente nossos gastos — esse seria o limite dos nossos desejos.” (04) “Não seria necessário renunciar tudo,” eu dizia. “Muitos homens grandes e dignos de imitação se dedicaram à sabedoria mesmo vivendo no estado de matrimônio.” Assim, a alma tentava conciliar dois senhores, construindo argumentos para não abandonar o mundo, mesmo reconhecendo que só em Deus estava a vida verdadeira que buscava.
(05) E ali permanecia eu, dividido, tentado, inquieto. Uma alma em pleno conflito: a luz da verdade já rompia as trevas, mas os velhos hábitos e prazeres ainda falavam com doçura. Eu via o caminho, mas hesitava em trilhá-lo por completo — como quem se recusa a sair de um sonho que já se mostrou mentira.

20 - O medo da felicidade e a demora da entrega
(01) Enquanto esses pensamentos se revezavam em mim, como ventos que mudam de direção e arrastam o coração, o tempo passava — mas eu adiava minha conversão ao Senhor. De dia em dia, eu protelava viver em Ti; mas de dia em dia, não adiava morrer em mim mesmo. Amava a vida feliz, mas a temia em sua verdadeira morada. E por isso, ao buscá-la, eu a evitava. (02) Eu achava que seria miserável demais se não estivesse envolto nos braços de uma mulher. E nem sequer considerava o remédio da Tua misericórdia para curar essa fraqueza, porque nunca o havia provado. Pensava que a continência estava ao alcance da própria vontade — embora em mim mesmo eu não a encontrasse. (03) Tão tolo eu era, que ignorava o que está escrito: “Ninguém pode ser continente, a não ser que Tu lho concedas” (Sb 8.21). E que Tu darias esse dom, se eu, com gemidos interiores, batesse às Tuas portas e, com fé firme, lançasse sobre Ti os meus cuidados (1Pe 5.7). (04) Mas eu não batia. Não confiava o suficiente para pedir. Não tinha ainda provado a força da Tua graça, nem admitido que minha própria força era ilusão. Era como quem vê de longe a cura, mas teme o gosto do remédio, preferindo manter-se doente, desde que envolto em seu consolo conhecido. (05) Assim eu amava, temia e fugia — dividido dentro de mim mesmo, desejando ser livre, mas com medo do preço da liberdade. E quanto mais tardava em me entregar, mais sentia o peso da minha prisão.

21 - A resistência à liberdade e a voz da serpente
(01) Alípio, de fato, me dissuadia do casamento. Argumentava que, se eu me casasse, seria impossível vivermos juntos, com plena liberdade, dedicados ao amor pela sabedoria — como há tanto desejávamos. Ele mesmo, nesse aspecto, vivia com uma pureza admirável. Mais admirável ainda porque, no início da juventude, tinha entrado por esse caminho, mas logo recuou, sentindo repulsa e vergonha. Desde então, vivia em continência exemplar. (02) Eu, porém, resistia. Apontava exemplos de homens que, mesmo casados, cultivavam a sabedoria, serviam a Deus com aceitação e mantinham amigos com fidelidade e afeto. Mas eu estava longe da grandeza desses espíritos. Preso à enfermidade da carne e ao seu veneno adocicado, arrastava minha corrente com temor de ser solto — como se alguém, ao tentar me libertar, tocasse uma ferida infeccionada e eu afastasse sua mão por dor e medo. (03) E mais: por meio de mim, a serpente falou a Alípio. Foi pela minha boca que ela lhe armou laços agradáveis, tentando prender seus pés livres e virtuosos nas seduções do prazer. Em vez de ajudar meu amigo a subir, era eu quem lançava tropeços em seu caminho. (04) Eu temia a liberdade que a castidade traria. Desejava a sabedoria, mas não queria renunciar aos laços que me mantinham escravizado. Alípio já caminhava solto, e eu, enredado, buscava justificativas que mascarassem minha covardia. (05) Assim, resistia ao bem, disfarçando a prisão em forma de argumentos, e me fazia, sem saber, instrumento da astúcia que seduz e prende até os mais fortes, se lhes falta vigilância e oração.

22 - Cativeiros distintos, mesma misericórdia
(01) Alípio se admirava ao ver que eu, a quem ele tinha em alta conta, estivesse tão preso ao visgo daquele prazer, a ponto de declarar — toda vez que discutíamos o assunto — que jamais conseguiria viver uma vida de continência. E, vendo seu espanto, eu me defendia dizendo que havia uma grande diferença entre sua experiência breve e quase esquecida daquele caminho — que, por isso, ele podia desprezar com facilidade — e a minha convivência constante com tal prazer, agora adornada pelo título respeitável de “matrimônio”. Era por isso, dizia eu, que ele não deveria se surpreender com minha resistência. (02) Essa minha defesa começou a despertar em Alípio o desejo de também se casar — não por estar dominado pelo desejo carnal, mas por curiosidade. Ele dizia querer entender o que era aquilo, sem o qual minha vida — tão admirável a seus olhos — me parecia, para mim mesmo, um fardo, e não vida de verdade. (03) Sua mente, livre da corrente que me prendia, espantava-se com a minha escravidão. Mas esse espanto o conduzia a um desejo de experimentar — e daí, talvez, ao próprio envolvimento, e então à queda no mesmo cativeiro que ele antes observava com perplexidade. Era como quem desejava fazer pacto com a morte (Is 28.15); e “quem ama o perigo, nele cairá” (Eclo 3.26). (04) O prestígio social ligado à boa administração do lar e da vida conjugal nos tocava pouco. Em mim, o que mais me torturava era o hábito de satisfazer um apetite insaciável, que me mantinha cativo. Em Alípio, era o fascínio curioso que começava a prender seu coração. Dois tipos diferentes de escravidão, mas igualmente distantes da liberdade. (05) E assim estávamos — até que Tu, ó Altíssimo, não nos abandonaste no pó. Compadecido da nossa miséria, vieste em nosso socorro por caminhos maravilhosos e ocultos, que só a Tua misericórdia poderia traçar.

23 - A espera pelo casamento e os sonhos que não vinham de Ti
(01) Persistia ao meu redor a pressão para que eu me casasse. Eu cortejava, fui prometido — tudo isso principalmente por esforço de minha mãe. Ela desejava que, uma vez casado, eu recebesse o batismo, e com ele a purificação da alma. Via com alegria que eu me aproximava disso, passo a passo, e sentia que suas orações, e Tuas promessas, começavam a se cumprir em minha fé. (02) Naquele tempo, tanto a meu pedido quanto por desejo próprio, ela rogava diariamente a Ti com gemidos profundos, suplicando que por meio de alguma visão revelasses algo sobre meu futuro matrimônio. Mas Tu nunca lhe concedeste tal visão. (03) De fato, ela teve algumas imagens fantasiosas — fruto da agitação da alma humana, que, quando voltada intensamente a um assunto, produz certos quadros interiores. Contou-me sobre essas visões, mas sem a convicção com que costumava relatar as verdadeiras revelações que recebia de Ti. Pelo contrário, desprezava-as, reconhecendo que não vinham de Ti. (04) Ela dizia que podia, por uma sensação difícil de explicar em palavras, distinguir entre as revelações que vinham de Ti e os sonhos que nasciam apenas da alma. E, embora nenhuma visão verdadeira lhe tivesse sido dada sobre esse casamento, o assunto continuava avançando. (05) Uma jovem foi escolhida, dois anos abaixo da idade apropriada para as núpcias. E como agradava à família, decidiu-se esperar por ela. Assim, o plano seguiu, como se a certeza humana bastasse — mesmo quando o céu permanecia em silêncio.

24 - O ideal desfeito e o riso de Deus sobre nossos planos
(01) Entre amigos, muitos de nós discutíamos, com desprezo, os tumultos da vida humana e debatíamos com seriedade a ideia de nos retirarmos das ocupações e do barulho do mundo. Estávamos quase decididos a formar uma vida comum, longe dos negócios e agitações, e o plano parecia nobre: reuniríamos tudo o que cada um pudesse contribuir e formaríamos uma só casa — onde nada pertenceria exclusivamente a alguém, mas tudo seria de todos, e todos, de tudo. (02) Imaginávamos um grupo de cerca de dez pessoas nessa sociedade. Alguns eram muito ricos, especialmente Romaniano, meu conterrâneo e amigo de infância, que estava em Roma, levado para lá pelas complicações de seus negócios. Ele era o mais entusiasmado com a ideia, e sua palavra tinha grande peso, pois sua fortuna superava a de todos os demais. (03) Já havíamos estabelecido até que dois de nós, por turnos anuais, seriam responsáveis por prover tudo o que fosse necessário, deixando os outros livres para a tranquilidade. Mas quando começamos a considerar se as esposas — que alguns já tinham e outros planejavam ter — permitiriam isso, todo o plano, que parecia tão bem delineado, desmoronou em nossas mãos. Foi por terra, quebrado e abandonado. (04) Restaram-nos suspiros e gemidos, e nossos pés retornaram às largas e gastas trilhas do mundo. Muitos pensamentos habitavam nosso coração — mas o Teu conselho, Senhor, permanece para sempre (Sl 33.11). (05) E do alto, riste dos nossos projetos e preparaste os Teus. Tinhas o propósito de nos dar o alimento no tempo certo, e de saciar nossas almas com a verdadeira bênção — não aquela que imaginávamos, mas a que vinha do Teu coração eterno.

25 - A ferida aberta da ausência e a escravidão do hábito
(01) Enquanto isso, meus pecados se multiplicavam. A mulher com quem eu vivia foi afastada de mim, pois era considerada um empecilho ao meu futuro casamento. E quando ela partiu, meu coração — tão preso a ela — foi despedaçado: ferido, sangrando, aberto. Ela voltou para a África, fazendo a Ti, Senhor, o voto de nunca mais se unir a outro homem. Deixou comigo o filho que tivemos juntos. (02) Mas eu, infeliz, não fui capaz de imitar sequer aquela mulher. Impaciente com a espera de dois anos pela jovem prometida — pois não amava o matrimônio, mas era escravo do desejo — procurei outra mulher, não como esposa, mas como consolo provisório. Assim mantive viva a enfermidade da alma, não apenas sustentando-a, mas talvez agravando-a ainda mais, levando minha corrupção para dentro do que um dia seria o matrimônio. (03) A ferida causada pela separação da companheira anterior não cicatrizou. Pelo contrário, inflamou-se com dor intensa, até apodrecer. Com o tempo, a dor deixou de ser aguda, mas tornou-se mais perigosa — pois era dor silenciosa, insidiosa, desesperançada. Já não gritava, mas envenenava tudo em silêncio. (04) Já não era uma paixão ardente, mas um hábito frio. Uma alma esgotada, conformada com sua própria prisão. E assim, afastado de Ti, fui me afundando — não com revolta, mas com resignação, como quem já não espera cura, e transforma o vício em modo de viver.

26 - A mão que me resgatava sem que eu visse
(01) A Ti seja o louvor, glória a Ti, ó Fonte de misericórdias. Quanto mais miserável eu me tornava, mais perto estavas de mim. Tua mão direita estava sempre pronta para me arrancar do lodo e me lavar por completo — e eu não percebia. Nada me impedia de afundar ainda mais no abismo dos prazeres carnais, exceto o medo da morte e do Teu juízo vindouro, temor que nunca me abandonou, mesmo em meio às minhas constantes mudanças. (02) Em minhas discussões com Alípio e Nebrídio sobre a natureza do bem e do mal, eu sustentava que Epicuro teria vencido, se eu não cresse que após a morte a alma continuava viva, e que existiam lugares de recompensa conforme os méritos — algo que Epicuro recusava. Eu perguntava: “Se fôssemos imortais e pudéssemos viver em prazeres corporais perpétuos, sem medo de perdê-los, por que não seríamos felizes? O que mais deveríamos buscar?” (03) Não percebia que uma grande miséria já estava contida justamente nesse pensamento: estar tão afundado e cego que não conseguia enxergar a luz da verdadeira excelência e beleza — que se ama por si mesma — invisível aos olhos da carne, mas visível ao homem interior. E eu, infeliz, nem mesmo refletia sobre de onde vinha aquele gosto que sentia ao falar dessas coisas com meus amigos, ainda que fossem temas impuros. (04) Mesmo nos prazeres sensuais, segundo minha concepção então de felicidade, eu não conseguia ser feliz sem amigos. E esses amigos, eu os amava por eles mesmos — e sentia que também era amado por mim mesmo, e não por interesse. Havia ali um sinal de verdade, ainda encoberto pelo erro, mas que preparava o terreno para a luz que, mais tarde, viria a me despertar por completo.

27 - Teus braços no fim das curvas
(01) Ó caminhos tortuosos! Ai da alma ousada que, ao abandonar-Te, esperava encontrar algo melhor! Ela se revirou de todas as formas — de costas, de lado, de bruços — e em cada posição encontrou apenas dor. Pois só Tu, Senhor, és o verdadeiro repouso. Fora de Ti, todo esforço é inquietação. (02) Mas eis que estavas perto o tempo todo. Tu nos libertas das errâncias miseráveis, colocas nossos pés no Teu caminho e nos consolas com Tua voz: “Corre! Eu te levarei. Eu mesmo te conduzirei. E quando não puderes mais, ali também Eu te carregarei.” Assim, o que antes era fuga, se transforma em retorno. O que era exaustão, se torna confiança. (03) Tu és descanso que sustenta, força que guia, amor que carrega. E quando, enfim, paramos de lutar contra Ti, descobrimos que não é pelas nossas pernas que avançamos, mas pelos Teus braços. E ouvimos de Ti, não como imposição, mas como promessa: “Anda. Eu estou contigo. E até o fim, Eu mesmo te levarei.”

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