Livro 2 - A adolescência de Agostinho
LIVRO II
Ele avança para a puberdade, e de fato para o início do décimo sexto ano de sua idade, no qual, tendo abandonado seus estudos, ele se entregou a prazeres carnais e, com seus companheiros, cometeu roubo.
01 - Doce amargura da memória do pecado
(01) Agora, Senhor, eu me volto para lembrar da podridão do meu passado, das paixões carnais que corromperam minha alma. Não o faço por nostalgia, nem por prazer nas trevas que vivi, mas por amor ao Teu amor. É por amor a Ti que reviro essas lembranças amargas: para que, ao reconhecer o quanto fui miserável, Tua doçura se torne ainda mais real para mim — Tu, que és a doçura que nunca se esgota, a alegria segura e eterna. (02) Eu me dispersava, rasgado por desejos contrários, afastado de Ti, o único Bem verdadeiro. E nesse afastamento, perdi a mim mesmo, dissolvido em mil vontades, preso às coisas que passam. (03) Na juventude, eu ardia de desejo pelas satisfações deste mundo, faminto por prazeres baixos. E nessa fome me lancei sem freios em amores variados, vazios e ilusórios. Enquanto isso, minha beleza espiritual se consumia, apodrecia diante dos Teus olhos. Ainda assim, eu me agradava a mim mesmo, e fazia de tudo para ser agradável aos olhos dos outros.
02 - Amor sem medida, desejo sem freio
(01) E o que era, afinal, que tanto me encantava? Era amar… e ser amado. Mas eu ultrapassei o limite do verdadeiro amor — aquele encontro de mente com mente, o brilho sereno da amizade. Deixei que o desejo carnal, lamacento, misturado com os impulsos impetuosos da juventude, levantasse uma névoa que escureceu meu coração. Já não conseguia distinguir a luz pura do amor da fumaça densa da luxúria. (02) Esses dois — amor e desejo — ferviam dentro de mim, confundidos, e arrastavam minha juventude sem freios rumo ao abismo dos desejos impuros. E ali, no fundo desse abismo de pecados, afundei. Tua ira já se acumulava sobre mim, e eu nem percebia. Estava surdo, o som da corrente da minha própria mortalidade abafava tudo — castigo do orgulho que dominava minha alma. (03) E assim, eu me afastava cada vez mais de Ti. Tu me deixaste seguir meu caminho, e eu me tornava cada vez mais perdido, desgastado, disperso. Eu transbordava em minhas fornicações, e Tu permanecias em silêncio — ó minha alegria tardia! Tu Te calaste, e eu me lancei ainda mais longe de Ti, semeando dores em terrenos estéreis, carregando um orgulho ferido e uma alma inquieta, sempre cansada e sem paz.
03 - Se ao menos alguém tivesse guiado minha juventude
(01) Ah! Se ao menos alguém, naquela época, tivesse moderado a desordem em mim, e me ensinado a reconhecer o valor passageiro das belezas sensíveis — esses pontos extremos da Tua criação! Se alguém tivesse posto um limite à sedução desses prazeres, talvez as marés impetuosas da minha juventude pudessem ter sido conduzidas até a praia segura do matrimônio, se não fosse possível silenciá-las por completo. Assim teria sido cumprida a Tua lei, Senhor, que estabelece a família como o destino legítimo do desejo humano (Gn 2.24). (02) Tu, que és capaz de suavizar com Tua mão mansa os espinhos que foram excluídos do Teu paraíso, Tu que, mesmo quando estamos longe, nunca estás distante com Tua onipotência. Eu deveria ter escutado com mais atenção aquela voz que ecoa das nuvens: “Mas os que se casarem terão tribulações na carne, e eu quisera poupar-vos” (1Co 7.28); e ainda: “É bom que o homem não toque em mulher” (1Co 7.1). Pois “o solteiro cuida das coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor; mas o casado cuida das coisas do mundo, de como agradar à esposa” (1Co 7.32-33). (03) Eu não escutei. Ignorei essas advertências que chamavam à sobriedade e à entrega total a Ti. E assim segui à deriva, dando ao desejo um espaço que só Te pertencia.
04 - O mar agitado da juventude e a Tua misericórdia severa
(01) A essas palavras eu deveria ter dado ouvidos com mais atenção. Se tivesse me consagrado por causa do Teu Reino, teria esperado com mais alegria os Teus abraços. Mas eu, miserável que era, fervilhava como mar revolto, seguindo o fluxo impetuoso dos meus próprios desejos, abandonando-Te, ultrapassando todos os Teus limites. Ainda assim, não escapei da Tua vara corretiva — e que mortal poderia? (02) Tu estavas comigo, Senhor, com uma misericórdia firme e severa, misturando amargura em todos os prazeres ilícitos que eu experimentava, para que, insatisfeito com alegrias corrompidas, eu começasse a buscar aquelas que são puras. Mas onde encontrar tais prazeres? Só em Ti, Senhor, que ensinas por meio da dor, que feres para curar, que matas para que não morramos longe de Ti (Os 6.1). (03) Onde eu estava? Quão longe eu estava exilado das alegrias da Tua casa? Tudo isso se passava no meu décimo sexto ano de vida, quando a loucura da luxúria — à qual a humanidade, em sua vergonha, dá livre licença, mesmo sem o aval da Tua lei — tomou conta de mim e me entreguei por completo. (04) Meus amigos, em vez de me ajudarem a conter a queda por meio de um casamento honesto, só se preocupavam em que eu me tornasse um bom orador, alguém eloquente e persuasivo. A alma, deixada à deriva, não era assunto deles.
05 - Um pai generoso, mas cego para o essencial
(01) Naquele ano, interrompi meus estudos. Tinha acabado de voltar de Madaura — uma cidade vizinha, para onde fui aprender gramática e retórica — enquanto se providenciavam os recursos para uma nova viagem, desta vez a Cartago. Era mais um desejo do que uma possibilidade concreta, pois meu pai, embora homem livre, era pobre em Thagaste. (02) Para quem conto isso? Não é a Ti que digo, ó meu Deus, porque nada Te é oculto. Falo diante de Ti, para meus semelhantes — para aqueles poucos que, por Tua vontade, vierem a encontrar estas minhas confissões. E por quê? Para que todo aquele que as ler entenda de que profundezas devemos clamar a Ti (Sl 130.1). Pois o que pode estar mais próximo dos Teus ouvidos do que um coração que se confessa, e uma vida que crê? (03) Muitos elogiavam meu pai, porque, mesmo sem recursos, fazia o possível e o impossível para garantir meus estudos em uma cidade distante. Homens mais ricos e influentes do que ele não faziam o mesmo por seus filhos. (04) No entanto, esse mesmo pai não se preocupava com o rumo que minha alma tomava em relação a Ti. Não se importava com minha pureza ou castidade. O que lhe bastava era que eu falasse bem, mesmo que minha vida fosse estéril diante de Ti, Senhor — Tu que és o verdadeiro e único dono da terra do meu coração, o único que pode cultivá-lo com frutos eternos.
06 - Espinhos na juventude e o temor santo de uma mãe
(01) Naquele meu décimo sexto ano, enquanto vivia com meus pais e deixava temporariamente os estudos — uma pausa forçada pela limitação dos recursos da família —, os espinhos dos desejos impuros cresceram descontroladamente sobre mim. E não havia mão que os arrancasse. (02) Um dia, meu pai me viu nos banhos públicos, já com traços de juventude madura, com a energia impetuosa própria da idade. E, como se já antevisse netos, correu alegremente contar à minha mãe. Alegrava-se com aquela tempestade dos sentidos, onde o mundo se esquece de Ti, Criador, e se apaixona pelas criaturas em Teu lugar. É como se se embriagasse com o vinho invisível da própria vontade, desviando-se de Ti para se curvar às coisas mais baixas. (03) Mas no coração de minha mãe Tu já havias começado a erguer Teu templo, o alicerce da Tua morada santa. Meu pai, por outro lado, era apenas um catecúmeno — e ainda recente nessa condição. Ela, então, se encheu de temor e tremor santo. E, embora eu ainda não fosse batizado, temia por mim e pelos caminhos tortuosos em que andam os que Te dão as costas, e não o rosto (Jr 2.27).
07 - Quando Te desprezei sem saber que eras Tu
(01) Ai de mim! E como ouso dizer que Tu Te calaste, ó meu Deus, enquanto eu me afastava de Ti? Terias mesmo guardado silêncio comigo? Mas de quem vinham aquelas palavras que, por meio de minha mãe — Tua serva fiel —, ecoavam aos meus ouvidos? Eram Tuas, Senhor. E, no entanto, nada delas penetrava meu coração a ponto de transformar minha vida. (02) Ela desejava o meu bem, e lembro com clareza da aflição com que me advertia em particular: “Não te entregues à fornicação; e, sobretudo, nunca manches o leito de outro homem.” Mas eu desprezava esses conselhos como coisas de mulher — frágeis, vergonhosas de obedecer. Mal sabia eu que eram Tuas palavras, e achava que eras Tu quem silenciava, quando eras Tu quem falava por ela. Foste desprezado por mim em Tua serva, minha mãe, a filha da Tua mão, e eu, seu filho, não percebi. (03) Cego, corri desenfreado. E entre os jovens da minha idade, sentia vergonha não de pecar, mas de parecer menos ousado que os outros. Quando os ouvia vangloriarem-se de seus pecados mais vergonhosos, sentia inveja — e quanto mais se rebaixavam, mais eu os admirava. (04) Eu me comprazia não só nas ações em si, mas no aplauso que elas geravam. O que é mais digno de reprovação do que o vício? Mas eu me tornava pior do que realmente era, só para não ser reprovado. E quando havia algo que eu não tinha feito, por ser menos impuro, ainda assim dizia que havia feito, para não parecer desprezível por minha relativa inocência; ou inferior aos outros, por ser mais casto.
08 - Nas ruas de Babilônia, com os olhos vendados pela ilusão
(01) Vê, Senhor, com que companhias eu andava pelas ruas de Babilônia, mergulhado em sua lama como se repousasse em leitos de perfumes e unguentos preciosos. E para que eu me apegasse ainda mais ao coração daquela cidade de perdição, o inimigo invisível me pisava e me seduzia — porque eu era fácil de seduzir. (02) Minha mãe segundo a carne, embora já tivesse fugido do centro de Babilônia, ainda caminhava lentamente por suas bordas. Aconselhava-me à castidade, sim, mas dava ouvidos ao que meu pai dizia sobre mim. Ela tentava, se não podar totalmente o mal, ao menos contê-lo dentro dos limites do casamento — o que já seria um freio, pois reconhecia o quanto aquilo era nocivo, tanto no presente quanto para o futuro. (03) Mas mesmo esse cuidado não prevaleceu. Ela temia que um casamento naquele momento atrapalhasse meus projetos — não os da vida eterna, nos quais ela confiava em Ti, mas os da formação intelectual, aos quais ambos os meus pais davam grande valor. Meu pai, porque pouco pensava em Ti e se alimentava apenas de vaidades a meu respeito; minha mãe, porque achava que os caminhos acadêmicos não impediriam, mas até poderiam favorecer o encontro contigo. (04) Pelo que me recordo de seus temperamentos, penso que era isso o que movia cada um. E assim, as rédeas foram soltas para mim — soltas demais, muito além do que a severidade necessária permitiria. Fui deixado livre para me perder nos jogos, nos prazeres, e em tudo o que minha vontade desejasse. (05) Tudo era névoa ao meu redor, obscurecendo o brilho da Tua verdade, ó meu Deus. E meus pecados explodiam como se brotassem da gordura do excesso (Sl 73.7).
09 - O roubo gratuito e o prazer no mal pelo mal
(01) O roubo é condenado pela Tua lei, ó Senhor — e também pela lei que escreveste no coração dos homens, lei que nem a iniquidade consegue apagar por completo. Pois que ladrão tolera outro ladrão? Nem mesmo o ladrão rico, que rouba por necessidade. No entanto, eu desejei roubar, e roubei — não por fome ou miséria, mas por estar entediado com o bem e saciado no mal. (02) Roubei o que eu já tinha em casa, e em qualidade melhor. E nem era pelo fruto em si que eu me alegrava, mas pelo ato do roubo, pelo pecado em si mesmo. Havia uma pereira perto da nossa vinha, carregada de frutos que não chamavam atenção nem pela cor nem pelo sabor. Fomos até ela — um grupo de jovens perversos — numa noite já avançada (pois nossos jogos nas ruas, como era nosso costume doentio, se prolongavam até tarde). Sacudimos a árvore e levamos grande quantidade de peras — não para comer, mas para atirar aos porcos, depois de apenas provarmos algumas. (03) Fizemos isso apenas porque nos era proibido. Vê o meu coração, ó Deus, olha para ele: ali Te compadeceste de mim, quando eu estava no mais fundo do abismo sem fundo. Agora deixo que meu coração Te diga o que buscava naquele ato: eu queria ser mau, sem outro motivo senão o prazer de fazer o mal. Era feio — e eu amava essa feiura. Eu amava a minha perdição, amava a minha culpa. Não aquilo que eu ganhava pecando, mas o próprio pecado. (04) Ó alma imunda, que caiu do Teu firmamento até a ruína completa! Eu não buscava nada além da vergonha — e amava a própria vergonha.
10 - Os encantos da criação e a desordem do desejo
(01) Há, sim, uma beleza nos corpos bem formados, no ouro e na prata, e em todas as coisas criadas. O toque do corpo, a harmonia entre os sentidos, tudo isso tem seu apelo próprio, ajustado ao nosso modo de perceber. Até a honra diante do mundo tem seu brilho, assim como o poder de vencer, de dominar — e disso também nasce a sede de vingança. (02) Mas mesmo ao desejar tudo isso, não devemos nos afastar de Ti, Senhor, nem nos desviar da Tua lei. Esta vida terrena, com suas proporções e correspondências, possui também seus encantos, refletindo de certo modo a beleza das coisas criadas por Ti. (03) A amizade humana também tem sua doçura, porque une muitas almas em um só afeto. E é por meio dessas coisas — boas em si — que o pecado muitas vezes se insinua. Pois, ao nos apegarmos de forma desordenada aos bens inferiores, acabamos abandonando os bens superiores: a Ti, Senhor nosso Deus, a Tua verdade e a Tua lei. (04) Sim, as coisas inferiores têm seus prazeres, mas nenhum se compara a Ti, que criaste todas elas. É em Ti que se alegra o justo; és Tu a verdadeira alegria dos corações retos (Sl 97.11-12).
11 - Ninguém peca por nada: até o mal busca um bem
(01) Quando perguntamos por que alguém cometeu um crime, só acreditamos na resposta se houver ali o desejo de alcançar algum daqueles bens inferiores — ou o medo de perdê-los. Porque essas coisas têm sua beleza e atrativo, ainda que, em comparação com os bens mais altos e bem-aventurados, sejam pequenas e indignas. (02) Um homem mata outro — por quê? Amava a mulher do outro? Queria seus bens? Roubava para sobreviver? Temia perder algo importante? Ou, tendo sido ofendido, ardia em desejo de vingança? Mas alguém mataria sem nenhum motivo, apenas pelo prazer de matar? Quem acreditaria nisso? (03) Até mesmo daquele homem selvagem e cruel — de quem se dizia que era mal por pura maldade — se conta uma causa: “Para que, pelo ócio, sua mão e seu coração não ficassem inativos.” Mas por quê? Porque, ao se acostumar ao crime, ele esperava, ao conquistar a cidade, alcançar honra, poder, riquezas, e se livrar do medo da lei, das dificuldades domésticas e da culpa por seus crimes. (04) Nem mesmo Catilina amava o mal por si só, mas desejava outra coisa — e usava o mal como meio para alcançá-la.
12 - O prazer no pecado, e não no fruto
(01) E o que foi, afinal, que tanto amei em ti, ó meu roubo miserável, obra das trevas no meu décimo sexto ano? Tu não eras belo — porque eras roubo. Mas és algo, para que eu fale contigo assim? As peras que roubamos eram belas, sim — porque foram criadas por Ti, ó Criador de todas as belezas, Deus bom, Bem soberano, meu verdadeiro Bem. (02) Eram belas, mas não foi por elas que minha alma miserável suspirou. Eu tinha peras melhores em casa, e ainda assim as colhi só para roubá-las. Depois de apanhá-las, joguei-as fora. Meu único prazer foi o próprio pecado — esse foi o banquete que me agradou. (03) Se alguma daquelas peras chegou à minha boca, o que adoçou o gosto foi o pecado, e não o fruto. E agora, Senhor meu Deus, eu Te pergunto: o que me atraiu naquele roubo? E vejo que ele não tinha beleza alguma — nenhuma daquelas belezas que há na justiça, na sabedoria, na mente humana, na memória, nos sentidos, na vida que anima o corpo. (04) Nem mesmo a beleza das estrelas em seus cursos, ou da terra e do mar, cheios de vida que renasce enquanto o antigo se desfaz. Nem mesmo aquela beleza ilusória e enganosa que pode haver nos vícios disfarçados. Nada disso havia ali.
13 - As máscaras dos vícios e a beleza incomparável de Deus
(01) Assim é o orgulho: uma imitação falsa da verdadeira grandeza. Mas só Tu, ó Deus, és verdadeiramente excelso sobre todas as coisas. A ambição busca honras e glória — mas somente Tu és digno de honra acima de todos, e Tua glória permanece para sempre (Sl 96.6). A crueldade quer ser temida — mas quem deve ser temido senão Tu, ó Senhor, que és invencível e cuja mão ninguém pode resistir? (02) A sensualidade finge ser amor — mas ninguém é mais terno do que Tu, cuja caridade é perfeita, e nada pode ser amado com mais pureza do que a Tua verdade, resplandecente em beleza sobre todas as coisas. A curiosidade se disfarça de sede de conhecimento — mas Tu és a sabedoria eterna, e nada escapa ao Teu saber. Já a ignorância e a tolice usam os nomes de simplicidade e inocência — mas só Tu és verdadeiramente simples e puro, e nada tens de mal, pois os próprios ímpios se ferem em suas más ações. (03) A preguiça busca repouso — mas onde há repouso firme, senão em Ti? A luxúria quer ser vista como abundância — mas Tu és a plenitude que jamais se corrompe, a fonte inesgotável da verdadeira delícia. A prodigalidade tenta se passar por generosidade — mas só Tu és o doador supremo, que transborda todo bem, sem jamais empobrecer. (04) A avareza deseja acumular — mas tudo pertence a Ti, Senhor, que nada perdes. A inveja busca destaque — mas quem é mais excelente do que Tu? A ira busca vingança — mas ninguém julga com mais justiça que Tu. O medo se aflige com o que pode acontecer, e tenta preservar o que ama — mas o que pode surpreender a Ti, e quem pode tirar algo de Ti? (05) A tristeza se abate quando perde aquilo que ama — porque quer reter o que é passageiro, esquecendo-se de que em Ti não há perda. Nada pode ser tirado de Ti, ó Senhor, e em Ti está a alegria incorruptível, a beleza perfeita, a plenitude eterna. Todos esses vícios se mascaram com o nome das Tuas virtudes — mas só em Ti está a verdade que nenhum engano imita.
14 - A alma que foge de Ti busca, em vão, ser como Tu
(01) Assim a alma comete adultério espiritual: quando se afasta de Ti e começa a buscar, fora de Ti, aquilo que só em Ti é puro e sem mácula. Todo aquele que se afasta de Ti tenta, de forma distorcida, Te imitar — e ao levantar-se contra Ti, acaba por reconhecer, mesmo sem querer, que Tu és o Criador de toda natureza. Pois não há lugar onde se possa fugir completamente da Tua presença (Sl 139.7). (02) Mas então, o que amei naquele roubo? Em que, mesmo de forma corrupta e perversa, imitei a Ti, meu Senhor? Teria eu desejado, às escondidas, fazer o contrário da Tua lei, apenas porque não podia fazê-lo às claras? Teria buscado, mesmo aprisionado, uma aparência de liberdade — uma liberdade mutilada — tentando fazer impunemente aquilo que me era proibido? Um reflexo sombrio da Tua onipotência? (03) Eis-me aqui, Teu servo, fugindo do Senhor e abraçando apenas uma sombra. Ó podridão, ó monstruosidade da existência, ó abismo de morte! Eu queria aquilo apenas porque era proibido? Atraía-me o fato de não poder, só porque não podia?
15 - Tudo é graça: o que caí, e o que não caí
(01) Que Te darei, Senhor, por tudo isso? Pois ao relembrar meus pecados, minha alma não se desespera, nem se apavora — e isso já é sinal do Teu amor em mim. Eu Te amarei, Senhor, Te darei graças e confessarei o Teu nome, porque Tu perdoaste todas essas culpas tão grandes e vergonhosas. (02) A Tua graça é quem fez isso. Foi a Tua misericórdia que derreteu meus pecados como gelo ao sol. E é à Tua graça também que atribuo tudo o que deixei de fazer de mal — porque, quem sou eu para pensar que seria incapaz de qualquer mal, se cheguei a amar o pecado apenas por ser pecado? (03) Tudo, Senhor, eu confesso ter sido perdoado: tanto o que fiz por vontade própria, quanto o que, por Tua direção, não cheguei a fazer. Que homem, ao reconhecer sua fragilidade, ousaria atribuir sua pureza à própria força? Seria isso Te amar menos, como se tivesse menos necessidade da Tua misericórdia — Tu, que perdoas os que se voltam para Ti (Sl 32.5). (04) E se alguém, ao ouvir Teu chamado, Te seguiu e evitou os pecados que agora eu confesso, não me despreze. Eu estava doente — e fui curado pelo mesmo Médico que o livrou da doença, ou ao menos a impediu de crescer. Que esse Te ame ainda mais, pois vê que o mesmo Senhor que me curou do abismo do pecado, foi quem o preservou da mesma ruína.
16 - O prazer do pecado partilhado e a ilusão do nada
(01) Que fruto colhi, miserável de mim, daquelas ações cujo simples lembrar hoje me envergonha? Especialmente daquele roubo que amei — não por causa do objeto, mas por ser roubo. E mesmo isso era nada! Quanto mais miserável, então, por ter amado o nada. (02) Mas sozinho eu não teria feito aquilo. Lembro-me bem: eu jamais o teria feito sozinho. A companhia dos cúmplices também me atraía. Então não era apenas o roubo que eu amava… mas o quê, afinal? A companhia? Mas ela também era um nada. Eu amava o nada, de todas as formas possíveis. (03) O que é, de fato, o “ser”? Quem pode me ensinar isso, senão Aquele que ilumina meu coração e revela seus recantos escuros? (Sl 18.28) O que é isso que me veio ao coração investigar, discutir, considerar? (04) Se eu tivesse realmente amado as peras que roubei, teria comido sozinho. O prazer estaria no simples ato de possuir o fruto. Mas não. Eu não precisava daquelas peras. O que me atraía era a transgressão em si — e, mais ainda, a excitação que vinha ao cometê-la em grupo. O pecado era mais doce porque era partilhado.
17 - O riso do pecado partilhado e a vergonha de não ser vergonhoso
(01) Mas que sentimento era esse, afinal? Era, sem dúvida, algo torpe — e ai de mim por tê-lo experimentado. Era como um prazer maligno, uma alegria perversa por enganar quem confiava em nós e jamais aprovaria o que fazíamos. E mesmo assim, a alegria estava justamente nisso. Mas eu não teria feito aquilo sozinho — pois o riso raramente é solitário. É raro alguém rir estando só, embora possa acontecer se algo engraçado o surpreender. Porém, naquele roubo, eu jamais teria agido sem companhia. (02) Eis, meu Deus, diante de Ti, a memória viva da minha alma: naquele roubo, não foi o objeto roubado que me atraiu, mas o próprio ato de roubar — e, mais ainda, o fato de fazê-lo com outros. Se eu estivesse sozinho, aquilo não teria me agradado. A verdade é que o pecado se revestiu do brilho falso da camaradagem. A vontade não era de possuir o que tomávamos, mas de participar da transgressão, de viver aquela cumplicidade que une em algo vergonhoso. (03) Ó amizade sem amor! Ó armadilha da alma! Desejo de prejudicar sem lucro, sem vingança, apenas pela travessura! Quando ouvimos: “Vamos lá, vamos fazer!”, sentíamos vergonha de parecer covardes. E assim, o pecado se tornava uma festa coletiva, uma ousadia orgulhosa em grupo, em que a vergonha de fazer o bem se disfarçava de coragem para o mal, e a verdadeira queda se mascarava de amizade.
18 - Terra seca longe de Ti, fonte da alegria
(01) Quem poderá desfazer esse nó emaranhado e tortuoso do coração humano? É algo que me repugna — detesto pensar nisso, detesto olhar para isso. Mas a Ti eu desejo, ó Justiça e Inocência! Tu és belo e amável aos olhos dos puros, e ofereces uma alegria que não se esgota. Em Ti há repouso completo, vida sem perturbação. Quem entra em Ti, entra na alegria do seu Senhor (Mt 25.21); e não temerá mais, pois fará o bem no Bem supremo. (02) Mas eu me afastei de Ti, Senhor. Vaguei para longe, perdi-me nos desvios da minha juventude — distante de Ti, que és meu apoio, minha fonte de vida. Fiz de mim mesmo uma terra árida: seca, sem fruto, sem alegria.
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