Livro 1 - Os primeiros anos de Agostinho

LIVRO 2 ----------------- [ Sobre a tradução] -------------------- LIVRO 6

LIVRO I

Começando com a invocação a Deus, Agostinho relata em detalhes o início de sua vida, sua infância e adolescência, até os quinze anos; idade em que ele admite que estava mais inclinado a todos os prazeres e vícios juvenis do que ao estudo das letras.


01 - Nosso coração inquieto só descansa em Ti
(01) Grande és Tu, Senhor, e digno de todo louvor. Tua força é imensa e Tua sabedoria, sem limites. E mesmo assim, o ser humano — uma pequena parte da Tua criação — deseja louvar-Te. O homem, que carrega em si os sinais da própria mortalidade, as marcas do pecado, o testemunho de que resistes aos orgulhosos (Tg 4.6), ainda assim quer Te louvar. Ele, tão pequeno diante de Ti. (02) Mas és Tu mesmo quem desperta em nós esse desejo de Te louvar, pois nos criaste para Ti, e o nosso coração vive inquieto enquanto não encontra repouso em Ti. (03) Concede-me, Senhor, entender o que vem primeiro: invocar-Te ou louvar-Te? E ainda: conhecer-Te ou invocar-Te? Pois como alguém pode invocar Aquele que não conhece? Quem não Te conhece pode acabar invocando uma imagem distorcida de Ti. Ou será que invocamos para então Te conhecer? Mas como invocarão Aquele em quem não creram? E como crerão, se ninguém lhes anunciar? (Rm 10.14) (04) Aqueles que buscam o Senhor O louvarão, pois quem O busca, O encontra; e quem O encontra, não pode deixar de louvá-Lo (Sl 22.26). Por isso, eu Te buscarei, Senhor, invocando o Teu nome. E Te invocarei com fé, pois já nos foi anunciado quem és Tu. Essa fé, Senhor, com a qual Te invoco, Tu mesmo me deste. Foste Tu quem a acendeu em meu coração, por meio da Encarnação do Teu Filho e do ministério daqueles que pregam Tua Palavra.

02 - Como Te chamar, se já estás em mim?
(01) Mas como invocarei a Ti, meu Deus, meu Senhor, se ao Te chamar, estou Te chamando para junto de mim? E onde haveria espaço dentro de mim para que Tu possas entrar? Tu, que criaste o céu e a terra — onde, em mim, caberia um Deus tão imenso? (02) Acaso existe, Senhor meu Deus, algo em mim que possa Te conter? Será que os céus e a terra, que Tu criaste e nos quais me colocaste, conseguem conter-Te? Ou será que, porque nada que existe poderia existir sem Ti, então tudo o que existe Te contém? (03) Sendo assim, eu também existo. Por que, então, desejo que entres em mim, se eu mesmo não existiria se Tu já não estivesses em mim? E ainda assim Te procuro. Não desci à morada dos mortos, e mesmo lá Tu estás (Sl 139.8). Se eu descesse ao abismo, ainda assim Te encontraria ali. Eu não poderia existir, meu Deus, de forma alguma, se Tu não estivesses em mim — ou melhor dizendo, se eu não estivesse em Ti, de quem, por quem e em quem são todas as coisas (Rm 11.36). (04) Sim, Senhor, é isso mesmo. Mas então, para onde Te chamo, se já estou em Ti? Ou de onde virias a mim, se não há lugar algum fora de Ti? Para onde eu poderia ir, além dos céus e da terra, para que de lá o meu Deus viesse até mim — Tu que disseste: “Encho o céu e a terra” (Jr 23.24)?

03 - Tu enches tudo, mas nada Te contém
(01) Será, então, que o céu e a terra Te contêm porque Tu os preenches? Ou será que Tu os preenches, mas ainda assim transbordas, porque eles não são capazes de Te conter por completo? E se já estão cheios de Ti, para onde flui esse Teu transbordar? Ou talvez Tu não precises ser contido por nada, Tu que conténs todas as coisas. Pois aquilo que Tu preenches, é por Ti contido — e não o contrário. (02) Os recipientes que enches não Te sustentam. Mesmo que se quebrem, Tu não Te derramas; mesmo que sejam frágeis, Tu permaneces intacto. Quando és derramado sobre nós, não és diminuído, mas nos elevas. Não Te dissipamos ao receber-Te — ao contrário, somos reunidos e restaurados por Ti. 03) Mas Tu, que enches todas as coisas, o fazes com todo o Teu ser? Ou, já que nada pode conter-Te plenamente, as coisas contêm apenas uma parte de Ti? E, se for assim, todas contêm a mesma parte ao mesmo tempo? Ou cada qual recebe a sua parte — mais ou menos, conforme sua capacidade? Mas poderia haver partes em Ti? Seria uma parte maior e outra menor? Ou és inteiro em todo lugar, e ainda assim nada é capaz de conter-Te por inteiro?

04 - Quem és Tu, meu Deus, senão o próprio Deus?
(01) Quem és Tu, então, meu Deus? O que mais, senão o Senhor Deus? Pois quem é Senhor, senão o Senhor? E quem é Deus, senão o nosso Deus? (Sl 18.31) (02) Tu és o Altíssimo, o sumamente bom, o poderosíssimo, o Todo-Poderoso; ao mesmo tempo, o mais misericordioso e o mais justo; o mais oculto, e ainda assim o mais presente; o mais belo, e também o mais forte; firme e inabalável, e, ao mesmo tempo, incompreensível. Tu não mudas, mas transformas todas as coisas. Nunca és novo, nem velho, mas renovas tudo, enquanto desgastas os soberbos com o tempo — e eles nem percebem. Estás sempre agindo, mas também sempre em repouso; sempre recolhendo, mas sem que Te falte nada. (03) Tu sustentas, preenches e envolves todas as coisas; crias, alimentas e fazes amadurecer; procuras, mas já tens tudo. Tu amas, sem paixões; és zeloso, sem ansiedade; arrependes-Te, mas não sofres dor; iras-Te, mas permaneces sereno. Mudas Teus feitos, sem mudar Teu propósito. Recolhes o que encontras, mesmo sem nunca ter perdido. Nada Te falta, e ainda assim Te alegras quando ganhas. Não cobiças, mas pedes o que Te é devido. (04) Recebes algo a mais só para poder recompensar — mas quem possui algo que não seja Teu? (1Cr 29.14) Tu pagas dívidas, mesmo sem dever; perdoas dívidas, sem perder nada. E o que foi que eu disse agora, meu Deus, minha vida, minha santa alegria? Ou o que alguém pode dizer ao falar de Ti? (05) Ai daquele que se cala, pois mesmo os mais eloquentes se calam diante de Ti. Ah, que eu possa descansar em Ti!

05 - Tu és meu único bem: diz à minha alma que és minha salvação
(01) Ah! Se ao menos Tu entrasses no meu coração e o inundasses de Tua presença, até que ele se embriagasse de Ti — para que eu esquecesse todas as minhas dores e Te abraçasse como meu único e verdadeiro bem! (02) Que és Tu para mim, Senhor? Tem piedade de mim e ensina-me a responder. Ou melhor: o que sou eu para Ti, que pedes meu amor com tamanha seriedade? E se não Te amo, Te indignas e me ameaças com sofrimentos terríveis. Mas será que já não é um castigo tremendo não Te amar? (03) Por causa da Tua misericórdia, responde-me, ó Senhor meu Deus: quem és Tu para mim? Diz à minha alma: “Eu sou a tua salvação” (Sl 35.3). Fala assim, para que eu Te ouça. Eis que meu coração está diante de Ti — abre-lhe os ouvidos e diz à minha alma: “Eu sou a tua salvação”. (04) Ao ouvir Tua voz, que eu corra para Ti com pressa e Te agarre com firmeza. Não escondas Teu rosto de mim (Sl 27.9). Que eu morra, se for preciso — mas não me deixes morrer sem ver-Te. Só quero uma coisa: contemplar Teu rosto.

06 - Limpa minha alma, Senhor, pois só Tu podes habitá-la
(01) Estreita é a morada da minha alma, Senhor — alarga-a, para que possas entrar. Está em ruínas — reconstrói-a. Há nela coisas que ofendem Teus olhos — eu reconheço e confesso isso. Mas quem poderá purificá-la? A quem mais posso clamar, senão a Ti? Purifica-me, Senhor, das minhas faltas ocultas; livra Teu servo do poder do inimigo (Sl 19.12-13). Eu creio — por isso falo (2Co 4.13). Tu sabes, Senhor. (02) Não confessei diante de Ti os meus pecados? E Tu, meu Deus, perdoaste a maldade do meu coração (Sl 32.5). Não me atrevo a contender contigo em juízo, Tu que és a própria verdade. Tenho medo de me enganar a mim mesmo, de que minha iniquidade se iluda a si própria. Por isso, não disputo Contigo. (03) Pois, se Tu observares as iniquidades, Senhor, quem poderá permanecer de pé? (Sl 130.3)

07 - Desde o leite materno, tudo vem de Ti
(01) Permite-me, Senhor, falar à Tua misericórdia — eu, que sou pó e cinza. Permite-me falar, pois me dirijo à Tua misericórdia, não a homens orgulhosos que zombam. E ainda que, por um momento, pareça que me desprezas, Tu hás de voltar e ter compaixão de mim (Mq 7.19). (02) O que direi, Senhor meu Deus, senão que não sei de onde vim a esta vida que morre — ou seria melhor chamá-la de morte que respira? Só sei que logo fui acolhido pelos cuidados da Tua compaixão, como ouvi dos meus pais, pois não lembro disso com minha própria memória. (03) Fui acolhido pelo leite materno, consolo dado às crianças. Nem minha mãe nem minhas amas tinham o leite por si mesmas, mas Tu, Senhor, o proveste, por meio delas, como parte da Tua ordem invisível, que distribui Tuas riquezas pelas fontes escondidas da criação. (04) Foste Tu que me fizeste desejar apenas o que me era dado, e a elas, que me alimentavam, deste prazer em me oferecer aquilo que vinham recebendo de Ti. Com amor aprendido no céu, davam-me generosamente o que, de Ti, recebiam em abundância. (05) Esse bem que veio delas, era também um bem para elas. Mas, na verdade, não veio delas, e sim por meio delas. Pois de Ti, ó Deus, vêm todas as coisas boas (Tg 1.17), e de Ti vem toda a minha saúde e sustento. (06) Isso eu só entendi mais tarde, quando percebi que, através desses dons — internos e externos — Tu já estavas me anunciando quem és. Naquela época, porém, eu só sabia sugar, descansar no que agradava minha carne e chorar diante do que me incomodava. Nada mais.

08 - Lágrimas e vontades sem voz
(01) Depois, comecei a sorrir — primeiro enquanto dormia, depois já desperto. Assim me contaram, e eu acreditei, pois vejo o mesmo acontecer com outros bebês, mesmo sem lembrar de mim nessa fase da vida. (02) Aos poucos, fui tomando consciência do mundo à minha volta. Surgiu em mim o desejo de comunicar o que eu queria àqueles que podiam me atender — mas eu não sabia como. Os desejos estavam presos em mim, e eles estavam fora, inalcançáveis pelos sentidos. (03) Então, eu mexia os braços, agitava as pernas, soltava sons, tentando, com os poucos gestos que podia fazer, expressar algo que se parecesse com o que eu queria. Mas, quando não era atendido — fosse porque meu desejo era incompreensível ou mesmo prejudicial — eu me irritava com os adultos, como se fossem meus servos, e descontava isso em lágrimas. (04) Aprendi tudo isso observando outros bebês. Eles, sem saber, me ensinaram mais sobre mim mesmo do que minhas amas, que apenas me alimentavam e cuidavam de mim.

09 - O mistério do começo e o Deus sem começo
(01) Eis que minha infância já morreu há muito tempo — e, no entanto, eu vivo. Mas Tu, Senhor, vives para sempre, e em Ti nada morre. Antes mesmo da fundação do mundo — e antes de qualquer coisa que se possa chamar de “antes” — Tu já eras. E és Deus e Senhor de tudo quanto criaste. (02) Em Ti permanecem firmes, para sempre, as causas primeiras de tudo o que é instável. E todas as fontes do que muda encontram em Ti uma estabilidade imutável. Em Ti vivem as razões eternas de todas as coisas que, aqui, são passageiras e desprovidas de razão. (03) Fala comigo, Senhor, que suplico a Ti. Fala comigo, Tu que és misericordioso, e eu, que tanto necessito de compaixão. Diz-me: minha infância veio após uma outra fase da minha vida, que morreu antes dela? Teria sido essa a vida que passei no ventre de minha mãe? (04) Ouvi algo sobre isso, e já vi mulheres grávidas. Mas, e antes disso? Antes dessa vida no ventre — ó Deus, minha alegria — eu era alguém, em algum lugar? Existia de alguma forma? (05) Não há quem possa me responder isso — nem meu pai, nem minha mãe, nem a experiência de outros, nem a minha própria memória. Irás zombar de mim por Te fazer tais perguntas, Senhor? E me dirás apenas que Te louve e Te reconheça pelo que sei?

10 - Em Ti, hoje e sempre, tudo vive e se move
(01) Eu Te reconheço, Senhor do céu e da terra, e Te louvo por teres me dado o ser, por aquela minha infância de que nada lembro. Pois assim determinaste que o ser humano descubra a si mesmo por meio de outros, confiando — com base no testemunho de frágeis mulheres — na história de sua própria origem. Mesmo então já existia, já vivia. E ao final da infância, comecei a buscar sinais para comunicar aos outros o que eu sentia. Mas de onde viria um ser assim, senão de Ti, Senhor? (02) Pode alguém criar a si mesmo? Existe outra fonte de onde brotem essência e vida, senão de Ti, ó Senhor, em quem ser e viver são uma só realidade? Pois Tu és a própria Essência suprema, a própria Vida. Tu és o Altíssimo, e não mudas. Em Ti, o dia de hoje nunca termina — e, no entanto, tudo se encerra em Ti, pois tudo existe em Ti. Nada poderia passar se Tu não o sustentasses. (03) Como os Teus anos não se esgotam, todos os Teus anos são um só “hoje”. Quantos anos nossos, quantos anos de nossos pais já fluíram por esse Teu eterno “hoje” — e dele receberam forma, duração e existência! E, ainda muitos outros anos fluirão, todos eles sendo moldados por esse mesmo “hoje”. Mas Tu permaneces sempre o mesmo. Tudo o que está por vir, tudo o que já passou — o amanhã e o ontem — Tu o realizas no Teu eterno presente. (04) E se alguém não compreende isso, que se alegre mesmo assim e diga: “Que mistério é este!” Que se alegre por, mesmo sem entender, ainda vislumbrar-Te — e que se conforme em Te buscar mais no mistério do não Te compreender do que no orgulho de pensar que Te entende e, assim, perca-Te de vista.

11 - A inocência frágil da infância
(01) Ouve-me, ó Deus! Ai do ser humano por causa do pecado! Assim diz o próprio homem, e Tu Te compadeces dele — pois foste Tu quem o criou, mas o pecado nele não veio de Ti. Quem me lembraria dos pecados da minha infância? Pois diante dos Teus olhos, ninguém é puro de pecado — nem mesmo o bebê que vive apenas um dia sobre a terra (Jó 14.4). Quem me recorda isso? Não são, por acaso, os próprios bebês, em quem vejo refletido aquilo que não lembro de mim mesmo? (02) Mas qual foi meu pecado naquela fase? Ter sido pendurado ao seio e chorado? Se hoje eu fizesse o mesmo para pedir comida própria da minha idade, seria com razão repreendido e ridicularizado. O que eu fazia então merecia censura — mas, como eu ainda não compreendia o que era uma repreensão, o costume e a razão impediam que me corrigissem. Aqueles comportamentos, quando crescidos, nós arrancamos e descartamos. (03) E ninguém, ao podar algo, elimina conscientemente o que é bom. Então, seria bom — mesmo que por um tempo — chorar por algo que, se fosse dado, me faria mal? Revoltar-me porque pessoas livres, mais velhas, até mesmo meus próprios pais, não se submetiam às minhas vontades? Que mal haveria em querer que todos obedecessem ao meu desejo, mesmo quando isso me prejudicaria? Bater, ou tentar ferir, por não ser atendido?

(04) A verdadeira inocência do bebê não está na sua vontade, mas na fraqueza dos seus membros. Eu mesmo já vi, com meus próprios olhos, um bebê tomado de inveja. Não sabia falar, mas empalidecia e olhava com raiva para o irmão de leite. Quem não conhece esse tipo de cena? Mães e amas dizem que acalmam essas reações com certos remédios que nem sabem bem explicar. (05) E isso também será chamado de inocência? Quando há leite em abundância e, mesmo assim, o bebê não quer dividir com outro que precisa desesperadamente, cuja vida depende daquilo? Suportamos tudo isso, não por não vermos mal algum ali, mas porque sabemos que esses comportamentos vão desaparecer com o tempo. Pois aquilo que é tolerado na infância, torna-se completamente inaceitável quando aparece na vida adulta.

12 - Louvor ao Deus que dá forma e vida, mesmo no esquecimento
(01) Tu, então, Senhor meu Deus, foste quem deu vida à minha infância. Foste Tu quem moldou meu corpo, unindo seus membros, ajustando suas proporções, implantando nele sentidos e funções vitais — tudo de forma harmoniosa e segura, como hoje podemos ver. E mandas que eu Te louve por isso, que Te confesse e cante ao Teu nome, ó Altíssimo. Pois Tu és Deus, Todo-Poderoso e Bom — mesmo que nada mais tivesses feito além disso, já serias digno de todo louvor. Porque ninguém, senão Tu, poderia realizar tal obra. (02) Tu és a Unidade perfeita que serve de molde para todas as coisas. É da Tua beleza que brota toda beleza. E tudo ordenas com Tua Lei. Esta fase da vida, Senhor — a infância da qual nada lembro, mas que aceito pelo testemunho dos outros e pelas observações que faço nos bebês — embora minha razão me diga que a vivi, ainda assim hesito em chamá-la de parte desta vida que tenho hoje no mundo. Pois ela está tão escondida nas sombras do esquecimento quanto o tempo que passei no ventre materno. (03) Mas se fui formado na iniquidade e em pecado fui concebido (Sl 51.5), onde, Senhor, onde e quando eu poderia ter sido verdadeiramente Teu servo sem culpa? Eis que passo por esse período sem memórias — e o que tenho eu a ver com algo de que nada resta em minha lembrança? (04) Mesmo assim, louvo-Te, Senhor, por esse tempo que não lembro. Pois ainda que dele não tenha consciência, sei que foi por Tua bondade que vivi, me movi e fui sustentado. Minha ignorância não apaga Teus feitos. E mesmo o silêncio da minha memória proclama que Tu és o Deus que dá forma, vida e sentido, mesmo no esquecimento.

13 - A descoberta da fala e a entrada no mundo dos homens
(01) Da infância, passei à meninice — ou melhor, foi ela que chegou a mim, substituindo a fase anterior. Mas a infância não partiu, pois para onde iria? Ela simplesmente deixou de ser. Eu já não era mais um bebê sem fala, mas um menino que começava a falar. Disso eu me lembro. (02) E desde então tenho observado como aprendi a falar. Não foi que os mais velhos me ensinaram palavras por meio de aulas organizadas, como fariam depois com outras matérias. O que acontecia era que, ao desejar expressar meus pensamentos — chorando, balbuciando e movendo o corpo — eu tentava comunicar minha vontade. Mas como não conseguia dizer tudo o que queria, nem a quem eu queria, fui, por conta própria, treinando os sons que memorizava, usando o entendimento que Tu, meu Deus, já me tinhas dado. (03) Quando alguém nomeava algo e apontava para aquilo, eu observava e percebia que aquele som era o nome daquilo. E o contexto deixava claro que era daquela coisa, e não de outra, que se tratava — isso ficava evidente pelos gestos, pelas expressões do rosto, pelo olhar, pelos movimentos e pelo tom de voz. Havia, por assim dizer, uma linguagem natural, comum a todos os povos, com a qual indicavam as emoções e intenções da alma: buscar, possuir, rejeitar, fugir. (04) Assim, ouvindo constantemente as palavras dentro de frases, fui reunindo em minha mente o significado delas. Depois de me acostumar com esses sons e sinais, passei a usá-los também — e, por meio deles, comecei a expressar minha própria vontade. (05) Com isso, entrei no intercâmbio da vida humana, trocando com os outros esses sinais comuns da vontade — mergulhando cada vez mais no mar agitado das relações humanas, ainda dependente da autoridade dos pais e das ordens dos mais velhos.

14 - A dor dos estudos e as primeiras orações
(01) Ó Deus, meu Deus, que sofrimentos e zombarias experimentei quando me impuseram a obediência aos mestres como virtude própria de um menino — tudo isso para que eu viesse a prosperar neste mundo e me destacasse na ciência das palavras, a fim de receber o "louvor dos homens" e alcançar riquezas ilusórias. (02) Fui então mandado à escola para aprender, sem entender que utilidade havia naquele saber. E, se me mostrasse preguiçoso nos estudos, era castigado com açoites. Era esse o costume aprovado pelos nossos antepassados — que, ao passar por esse mesmo caminho antes de nós, construíram trilhas árduas que agora éramos obrigados a trilhar, multiplicando fadiga e tristeza sobre os filhos de Adão (Gn 3.17). (03) Mas, Senhor, foi nesse tempo que começamos a ouvir dizer que os homens clamavam a Ti. E, segundo nossas forças infantis, aprendemos a pensar em Ti como alguém grandioso, invisível aos nossos sentidos, mas capaz de nos ouvir e socorrer.

(04) Assim, comecei, ainda menino, a orar a Ti, meu auxílio e refúgio. Soltei os laços da minha língua e Te invoquei, com fervor sincero — ainda que pequeno, com súplica não pequena — pedindo-Te que eu não fosse castigado na escola. (05) Mas, quando não me ouviste — não porque me abandonasses à insensatez, mas por sabedoria — meus mais velhos, inclusive meus próprios pais (que não me queriam mal), riam dos meus castigos. E para mim, aquilo era uma dor imensa e terrível.

15 - A hipocrisia dos castigos e o amor pelo jogo
(01) Existe, Senhor, alguma alma tão elevada, tão ligada a Ti por um amor tão intenso — ainda que obstinado —, que por estar devotamente unida a Ti, seja capaz de desprezar as torturas e os instrumentos de suplício, contra os quais homens do mundo inteiro Te invocam em pavor? Alguém que ria desses tormentos como nossos pais riam das dores que sofremos na infância, sob as mãos de mestres severos? Pois temíamos esses castigos escolares como os adultos temem seus próprios sofrimentos — e orávamos a Ti com a mesma angústia para que nos poupassem deles. (02) É verdade que, muitas vezes, merecíamos tais castigos, pois negligenciávamos a leitura, a escrita e os estudos que nos eram exigidos. Mas essa negligência não vinha de incapacidade ou falta de memória, pois essas faculdades Tu mesmo nos concedeste conforme nossa idade. Nosso único prazer era brincar — e por isso éramos punidos por quem fazia, em essência, o mesmo. (03) Porque a ociosidade dos adultos é chamada de “negócio”; a das crianças, que é da mesma natureza, é castigada por esses mesmos adultos. E ninguém demonstra compaixão — nem pelos meninos que brincam, nem pelos homens que trabalham. Quem, em sua razão, aprovaria que eu fosse açoitado por jogar bola e com isso atrasar nos estudos — sendo que esses estudos só serviriam para, no futuro, brincar de forma ainda mais vaidosa e perigosa? (04) E o que dizer daquele que me batia? Quando perdia uma discussão tola com outro mestre, ficava mais amargurado e invejoso do que eu quando era derrotado num jogo de bola. Onde está, então, a verdadeira diferença entre as brincadeiras da infância e os jogos sérios dos adultos, senão na gravidade das consequências e na hipocrisia dos que punem?

16 - O prazer da desobediência e o clamor por libertação
(01) E, no entanto, pequei, Senhor Deus, Criador e Ordenador de todas as coisas da natureza — mas do pecado, apenas o Juiz. Pequei, Senhor meu Deus, ao transgredir os mandamentos dos meus pais e mestres. (02) Pois o que eles queriam que eu aprendesse, mesmo que não soubessem o real valor disso, poderia mais tarde me ser útil — e eu desobedeci, não porque tivesse uma escolha melhor, mas por amor ao brincar, por gostar do orgulho da vitória nos jogos, por desejar ouvir histórias falsas que me excitavam os ouvidos e despertavam ainda mais minha curiosidade. (03) Essa mesma curiosidade brilhava em meus olhos quando assistia aos espetáculos e jogos dos adultos. E, paradoxalmente, esses que promovem tais espetáculos são tão valorizados, que quase todos desejam isso para os próprios filhos — mas, ao mesmo tempo, não hesitam em castigá-los se essas mesmas distrações os afastarem dos estudos, cujo objetivo seria exatamente levá-los a se tornar o que admiram. (04) Tem piedade de nós, Senhor, e livra-nos dessas contradições. Livra-nos, a nós que agora Te invocamos; e livra também os que ainda não Te chamam — para que passem a Te invocar, e, assim, possam ser libertos por Ti.

17 - Sementes da fé e o desejo pelo batismo
(01) Ainda menino, já ouvira falar da vida eterna, prometida a nós pela humildade do Senhor nosso Deus, que se rebaixou para alcançar nosso orgulho. E, desde o ventre de minha mãe — que esperava em Ti com grande fé — fui marcado com o sinal da cruz e temperado com o Teu sal (Mt 5.13). (02) Tu viste, Senhor — sim, viste — como, sendo ainda criança, fui acometido de uma súbita dor no estômago, tão intensa que parecia me conduzir à morte. Tu, meu Deus, que sempre me guardaste, viste com que pressa e com que fé eu desejei, pela piedade da minha mãe e da Tua Igreja, mãe de todos nós, o batismo do Teu Cristo, meu Deus e meu Senhor. (03) Então, minha mãe — a mãe da minha carne — se perturbou profundamente. Pois, com um coração puro na fé, ela sofria de novo as dores do parto, agora pelo nascimento da minha salvação. Queria, com urgência, providenciar que eu fosse consagrado e purificado pelos sacramentos que dão vida — confessando-Te, Senhor Jesus, para a remissão dos pecados. Mas de repente melhorei. E assim, como se ao viver eu fosse me contaminar novamente, decidiram adiar minha purificação. Temeu-se que, após o batismo, eu viesse a manchar-me com pecados que tornariam minha culpa ainda mais grave e perigosa. (04) Eu já cria, naquela época. Minha mãe também cria — assim como toda a casa, com exceção de meu pai. Mas nem mesmo ele conseguiu prevalecer contra o poder da piedade da minha mãe, a ponto de me afastar da fé. Pois, embora ele ainda não cresse, ela se empenhava para que Tu, meu Deus, fosses mais pai para mim do que ele. (05) E foi assim que a ajudaste a vencer, Senhor — ainda que ela, sendo melhor do que ele, o obedecesse como esposa. Obedecia a ele, sim, mas ao fazê-lo, obedecia antes a Ti, que assim o ordenaste (Ef 5.22).

18 - Por que foi adiado meu batismo, Senhor?
(01) Suplico-Te, meu Deus: se for da Tua vontade, deixa-me entender por que meu batismo foi adiado. Teria sido, de algum modo, para o meu bem, que me deixaram livre — ou, ao menos, parcialmente livre — como quem solta das rédeas um animal, para que eu pecasse à vontade? Porque, se não foi uma liberdade total, por que então se ouvia por toda parte: “Deixa, deixa, ele ainda não foi batizado, pode fazer o que quiser”? Mas, quando se trata da saúde do corpo, ninguém diz: “Deixa a ferida piorar, ele ainda não foi curado.” (02) Quanto melhor teria sido ser curado logo pela Tua graça! Uma alma restaurada em Ti poderia então ser guardada com segurança — protegida por quem a curou, amparada por mim mesmo e pelos meus irmãos na fé. Sim, teria sido melhor assim. Mas quantas tentações se acumulavam, ameaçadoras, no horizonte da minha juventude! (03) Minha mãe, que via com olhos de fé, previa essas tormentas. Por isso, preferiu não lançar ao mar da vida um vaso já formado, correndo o risco de vê-lo quebrado. Preferiu expor à tempestade um barro ainda maleável — que mais tarde, com o Teu cuidado, poderia ser moldado com firmeza.

19 - Forçado a estudar, corrigido pela Tua justiça
(01) Ainda na infância — uma fase que eu temia menos do que a juventude — eu não gostava de estudar. Odiava ser forçado a isso. Mas fui forçado, e nisso, de certo modo, fizeram bem comigo. Pois se não fosse pela obrigação, eu não teria aprendido nada. No entanto, ninguém faz algo verdadeiramente bom quando o faz contra a vontade, mesmo que o resultado seja bom. E tampouco agiram bem aqueles que me obrigaram. Mas o que houve de bom nisso veio de Ti, meu Deus. (02) Aqueles que me pressionavam a aprender não se preocupavam com o fim daquilo que me ensinavam. Queriam apenas satisfazer os desejos insaciáveis de uma pobreza disfarçada de riqueza, e de uma glória que, no fundo, era vergonhosa. Queriam preparar-me para o sucesso mundano — e o mundo aplaude isso. Mas Tu tinhas outro plano. (03) Tu, Senhor, que contas até os fios de cabelo da nossa cabeça (Mt 10.30), usaste o erro deles para realizar algo bom em mim. E também usaste o meu próprio erro — minha resistência, minha recusa em aprender — como instrumento de correção. Assim, pelas mãos daqueles que não faziam o bem, realizaste o bem. E, por meio do meu pecado, aplicaste uma punição justa sobre mim. (04) Porque Tu ordenaste — e é assim mesmo — que toda afeição desordenada se converta, por si só, em seu próprio castigo. Eu fui corrigido — e corrigido com justiça — por não querer aprender o que mais tarde reconheceria como fundamental.

20 - As letras que aprendi e o amor que me faltava
(01) Mas por que eu odiava tanto a língua grega, que estudei quando menino? Até hoje não sei responder completamente. Eu gostava do latim — não das lições dos primeiros mestres, mas daquelas que os chamados gramáticos ensinavam mais adiante. (02) Porque as primeiras aulas — de leitura, escrita e matemática — eu considerava um fardo tão pesado quanto as aulas de grego. E por quê? Senão por causa do pecado e da vaidade desta vida? Pois eu era carne, um sopro que passa e não volta (Sl 78.39). (03) No entanto, essas lições iniciais eram, de fato, melhores — porque eram mais úteis. Graças a elas, hoje sou capaz de ler o que está escrito e escrever o que desejo. Já nas outras, fui forçado a aprender os desvios de Eneias, esquecendo-me dos meus próprios; a chorar por Dido, que se matou por amor — tudo isso enquanto eu mesmo morria por dentro, sem lágrimas, mergulhado nessas histórias e longe de Ti, ó Deus, minha vida.

21 - Chorei por Dido, mas não por mim
(01) O que pode ser mais miserável do que alguém que, estando miserável, não tem compaixão de si mesmo? Eu chorava a morte de Dido, apaixonada por Eneias — mas não chorava minha própria morte interior por falta de amor a Ti, ó Deus. (02) Tu, que és a luz do meu coração, o pão da minha alma mais profunda, a força que dá vigor à minha mente, o sopro que anima meus pensamentos — e eu não Te amava. Eu Te traía, e vivia rodeado de outros que também Te traíam, e entre eles ecoava um aplauso: “Muito bem! Muito bem!” (03) Pois a amizade do mundo é adultério contra Ti (Tg 4.4). E esse “Muito bem! Muito bem!” ressoava de tal forma que se tornava vergonhoso não ser “homem” aos olhos do mundo, isto é, não viver assim. (04) E por tudo isso eu não chorava. Eu, que derramava lágrimas por Dido, que se matou com a espada, enquanto eu mesmo buscava uma ruína ainda mais profunda — a de me afastar de Ti, Deus, o mais elevado, para me apegar ao que é mais baixo na criação: terra voltando à terra (Gn 3.19). (05) E quando me proibiam de ler essas histórias, eu me entristecia por não poder ler o que me entristecia! Uma loucura como essa era considerada um saber elevado e nobre — mais valioso do que aquele pelo qual aprendi a ler e escrever.

22 - Prefiro saber ler do que chorar Troia
(01) Mas agora, meu Deus, deixa que Tua verdade clame alto dentro da minha alma: “Não, não era assim. Aqueles primeiros estudos eram muito melhores.” Pois, veja — se me dessem a escolha, eu preferiria esquecer os caminhos de Eneias e todas aquelas histórias do que esquecer como se lê e se escreve. A utilidade clara de uma coisa supera em muito a beleza ilusória da outra. (02) Dizem que há um véu sobre a porta da escola de gramática. Sim, mas esse véu não cobre um mistério sagrado, e sim um erro disfarçado. Que não se levantem contra mim os mestres que já não temo, e que eu possa, diante de Ti, confessar sem reservas tudo o que minha alma deseja — reconhecendo os caminhos maus por onde andei, para aprender a amar os Teus caminhos bons. (03) E que também não gritem contra mim os que negociam saber gramatical como se fosse mercadoria. Pois, se eu perguntar a qualquer um deles se Eneias realmente chegou a Cartago, como conta o poeta, os menos instruídos dirão que não sabem; os mais eruditos, que isso nunca aconteceu. Mas, se eu perguntar como se escreve o nome “Eneias”, todos saberão responder de acordo com os sinais combinados entre os homens. (04) E se for perguntado: o que seria mais grave esquecer — a leitura e a escrita, ou as lendas poéticas? Qualquer um com um mínimo de juízo saberá a resposta certa. Sim, pequei, Senhor, quando, ainda menino, preferi estudar as ficções àquilo que era mais útil — ou melhor, quando amei as histórias vazias e desprezei as verdades elementares. (05) As contas simples — “um mais um, dois”; “dois mais dois, quatro” — me pareciam uma cantiga tediosa e insuportável. Mas “o cavalo de madeira cheio de guerreiros”, “o incêndio de Troia”, “a sombra triste de Creúsa” — tudo isso me fascinava como espetáculo, inflamando minha vaidade infantil. E assim, desde cedo, meu amor foi mais para a fantasia do que para a verdade.

23 - Aprender pelo medo ou pelo desejo?
(01) Mas então, por que eu odiava os clássicos gregos, cujas histórias eram tão semelhantes às do latim? Homero também bordava suas ficções com engenho, e sua vaidade era doce aos que o compreendiam — mas, para o meu paladar infantil, era tudo amargo. A língua estranha tornava tudo mais difícil, e eu não via beleza ali. (02) Imagino que algo parecido aconteça com crianças gregas forçadas a estudar Virgílio, como eu fui forçado com Homero. A língua estrangeira era como fel derramado sobre as fábulas, apagando seu encanto. E, sem entender uma palavra sequer, o aprendizado vinha acompanhado de ameaças duras e castigos severos. (03) Ora, quando era apenas um bebê, eu também não sabia latim — e no entanto aprendi a falar sem que ninguém me forçasse. Aprendi ouvindo, observando, sorrindo e brincando. Meus amigos e familiares me incentivavam com gestos e carinho, e assim, de forma natural, fui moldando meu idioma com a linguagem do amor. (04) Aprendi porque desejava me comunicar. Era meu coração que me impelia a dar forma aos pensamentos — e as palavras surgiam do convívio com aqueles que me cercavam, não de lições formais. Foram seus ouvidos que receberam, como um parto, aquilo que eu carregava em minha mente. (05) É certo, então, que a curiosidade livre tem mais força para nos ensinar do que a imposição. Mas o rigor também tem seu papel, pois limita os desvios da liberdade — e é assim que Tu, Senhor, operas por meio das Tuas leis. Das varas dos mestres aos tormentos dos mártires, Tu nos serves um remédio amargo, mas curativo — e, assim, nos reconduzes de volta do prazer mortal que nos arrasta para longe de Ti.

24 - Que tudo em mim Te sirva, ó Rei meu e Deus meu
(01) Ouve, Senhor, a minha oração. Que minha alma não desfaleça sob Tua disciplina, nem eu desista de confessar diante de Ti todas as Tuas misericórdias — por meio das quais me tiraste dos meus piores caminhos, para que Tu Te tornasses meu maior prazer, acima de todos os encantos que um dia persegui. (02) Que eu Te ame com todo o meu ser; que eu segure firme Tua mão com todas as minhas afeições. E que Tu continues a me livrar de toda tentação, até o fim. Pois eis-me aqui, Senhor, meu Rei e meu Deus — tudo o que aprendi de útil na infância, seja agora para o Teu serviço. Que eu fale, escreva, leia, conte — tudo para Ti. (03) Tu me concedeste Tua disciplina, mesmo quando eu estava aprendendo vaidades. E perdoaste o meu pecado de me deleitar nessas vaidades. De fato, nelas aprendi muitas palavras úteis — mas essas mesmas palavras podem ser aprendidas em coisas que não são vãs. E esse é o caminho seguro para os passos dos jovens.

25 - Contra o costume do mundo e os deuses da vaidade
(01) Ai de ti, torrente impetuosa do costume humano! Quem poderá resistir a ti? Até quando deixarás de secar? Até quando arrastarás os filhos de Eva rumo a esse oceano vasto e horrendo — aquele que mal conseguem atravessar até mesmo os que se apegam à cruz? (02) Não li eu em teus escritos sobre Júpiter, o que troveja e comete adultério? E, no entanto, ele não poderia ser as duas coisas ao mesmo tempo. Mas essas fábulas fingidas serviam para dar aval ao adultério real — como se o trovão inventado justificasse a devassidão dos homens. (03) E qual dos nossos mestres de toga se dispõe hoje a ouvir com seriedade alguém que, vindo de suas próprias escolas, clame: “Essas são fábulas de Homero, que transferiu aos deuses os vícios dos homens. Ah, se ao menos ele tivesse trazido aos homens as virtudes dos deuses!” (04) Ainda mais verdadeiro seria dizer: “Essas são de fato suas ficções — mas ao atribuir natureza divina a homens perversos, ele fez com que os crimes deixassem de ser crimes. Assim, quem os comete parece não estar imitando pecadores, mas deuses celestiais.”

26 - Palavras belas, vinho amargo
(01) E, no entanto, ó torrente infernal, para dentro de ti são lançados os filhos dos homens — e com grandes recompensas, por alcançarem tal aprendizado. E tudo isso se celebra com solenidade, como se fosse um rito público, nas praças, diante das leis que garantem salário ao mestre, além do pagamento dos alunos. (02) E tu ruges, batendo contra tuas rochas: “É daqui que vêm as palavras! Daqui nasce a eloquência! Essencial para alcançar objetivos e defender opiniões!” (03) Como se jamais pudéssemos conhecer expressões como “chuva de ouro”, “colo”, “seduzir”, “templos dos céus” e outras semelhantes — a não ser que Terêncio subisse ao palco com um jovem lascivo, apresentando Júpiter como modelo de sedução:
“Vendo um quadro que narrava a cena:
Júpiter descendo em chuva de ouro
ao colo de Danae, para seduzi-la.”

(04) E logo o jovem se incita ao desejo, como se tivesse respaldo divino:
“E que Deus? O grande Júpiter,
que com seu trovão sacode os altos templos do céu...
E eu, pobre mortal, não faria o mesmo?
Fiz — e com todo o meu coração!”

(05) Palavras como essas não se aprendem com mais facilidade por causa da vileza — mas a vileza, por causa delas, é praticada com menos vergonha. Não culpo as palavras em si — são como vasos belos e preciosos. Mas é o vinho do erro que nos é servido nelas por mestres embriagados. E se não bebemos, somos castigados — e não há juiz sóbrio a quem possamos apelar. (06) Contudo, ó meu Deus — na Tua presença, posso agora recordar tudo isso sem me ferir — eu aprendi tudo isso com gosto e alegria. E por causa disso, diziam que eu era um menino promissor.

27 - Louvor dos homens, silêncio diante de Deus
(01) Suporta-me, ó meu Deus, enquanto falo um pouco sobre minha inteligência — dom Teu — e sobre as tolices às quais a entreguei. Foi-me imposto um exercício que afligia minha alma: sob a ameaça de castigos, vergonha ou elogio, eu devia interpretar as palavras de Juno, furiosa e lamentosa por não conseguir “Afastar o príncipe troiano da terra latina.”

(02) Eu sabia que Juno jamais dissera tais palavras — mas éramos obrigados a nos perder nos rastros dessas ficções poéticas, e a dizer, em prosa, o que o poeta dizia em verso. (03) O mais aplaudido era aquele que conseguisse expressar com mais força a raiva e a tristeza do personagem, e ainda assim manter, com linguagem apropriada, a dignidade da figura representada. Mas de que me serviu, ó minha verdadeira vida, meu Deus, ter sido mais aplaudido do que tantos da minha idade e classe? Tudo isso não passava de fumaça e vento. (04) Não havia outro uso para o meu talento e minha voz? Tua Palavra, Senhor, Teu louvor — isso sim poderia ter sustentado o broto ainda tenro do meu coração, apoiando-o nas Escrituras. Assim, ele não teria se arrastado por essas vaidades, tornando-se presa impura para as aves dos céus (Mt 13.4). Pois há muitas formas pelas quais os homens ainda hoje sacrificam aos anjos rebeldes.

28 - A verdadeira distância de Ti é o desejo desordenado
(01) Mas como me admirar, Senhor, por ter-me deixado levar por vaidades e me afastado da Tua presença, se os modelos que me apresentavam eram homens assim? (02) Homens que, ao contar alguma ação que não era em si má, se sentiam envergonhados se cometiam um erro de linguagem — uma barbaridade ou solecismo. Mas, se relatavam uma vida desordenada em um discurso bem adornado, elegante e fluente, eram aplaudidos — e se orgulhavam disso. (03) Tu vês todas essas coisas, Senhor, e Te calas. És longânimo, cheio de misericórdia e verdade (Êx 34.6). Permanecerás calado para sempre? (04) E mesmo agora, Tu estendes a mão e tiras do abismo aquele que Te busca, aquele cuja alma tem sede dos Teus prazeres, aquele que diz no coração: “A Tua face, Senhor, eu buscarei” (Sl 27.8). Afastar-se de Ti, na verdade, não é caminhar com os pés nem mudar de lugar. O que nos afasta de Ti são os afetos obscurecidos, as paixões desordenadas. (05) Acaso o filho mais novo da parábola buscou cavalos, carruagens, navios ou asas para voar, ou viajou com o corpo para um país distante, para ali desperdiçar em devassidão o que lhe deste ao partir? (Lc 15.13) (06) Tu foste um Pai amoroso ao conceder-lhe a herança — e ainda mais amoroso ao recebê-lo de volta, vazio. Sim, é na cobiça — isto é, nas afeições obscurecidas — que se encontra a verdadeira distância do Teu rosto.

29 - Pronunciar certo, odiar com perfeição
(01) Eis, ó Senhor Deus — sim, olha com Tua paciência costumeira — como os filhos dos homens observam com extremo cuidado as regras combinadas das letras e das sílabas, herdadas de quem veio antes deles, enquanto desprezam a aliança eterna da salvação recebida de Ti. (02) A ponto de que um mestre ou estudante das regras gramaticais causa mais escândalo ao dizer “um ser umano” — omitindo o “h” — do que se, sendo um ser humano, odeia outro ser humano, violando assim Tua Lei. (03) Como se pudesse haver inimigo mais danoso do que o ódio que queima dentro do coração; como se alguém ferisse mais profundamente o próximo do que fere a própria alma ao odiá-lo. Não existe saber linguístico mais enraizado do que a consciência que diz: “Não faças ao outro o que não queres que te façam” (Mt 7.12). (04) Quão profundas são as Tuas veredas, ó Deus, Tu que és o único verdadeiramente grande. Tu Te assentas em silêncio nas alturas, aplicando uma justiça incansável, que castiga com cegueira os desejos desordenados dos homens. (05) Em busca da fama da eloquência, alguém se apresenta diante de um juiz humano, cercado de uma multidão, e ali discursa com ódio feroz contra seu inimigo. Vigia com todo o cuidado para não cometer um erro de pronúncia ao dizer “ser humano” — mas não se preocupa nem um pouco se, pela fúria do coração, assassina de fato esse ser humano com seu ódio.

30 - O pecado na infância e o clamor por misericórdia
(01) Este era o mundo, Senhor, à cuja porta eu jazia, infeliz, na minha meninice. Era o palco onde eu temia mais cometer um erro de gramática do que invejar, com amargura, os que não erravam — e, tendo pecado, eu me orgulhava de não ter sido pego. (02) Confesso-Te, ó meu Deus: por esses atos infantis eu era elogiado por aqueles que, então, eu via como modelo de virtude — e cujo aplauso eu buscava com todas as forças. Eu não enxergava o abismo de miséria em que estava mergulhado, afastado do Teu olhar. E, mesmo sendo admirado por outros como eu, nada havia em mim que Te fosse agradável. (03) Mentia aos meus tutores, aos mestres, aos pais — incontáveis vezes — apenas por desejo de brincar, por curiosidade diante de espetáculos vãos, por um impulso inquieto de imitar os adultos. Roubava da mesa de casa, às vezes por gula, às vezes para comprar brinquedos de outros meninos. Buscava vencer nos jogos com trapaças, enquanto era vencido pela vaidade de querer parecer superior. (04) O que eu fazia com os outros, não suportava que fizessem comigo. E, quando corrigido, preferia discutir do que me submeter. E esta é a tal inocência da infância? Não, Senhor, não é. Clamo por Tua misericórdia! (05) Pois os mesmos pecados, ao crescer, apenas mudam de nome: os tutores se tornam magistrados, os brinquedos viram riquezas, as disputas infantis tornam-se guerras por poder. E os castigos também se transformam: das varas escolares para as penas dos tribunais. No entanto, Tu, ó Rei nosso, exaltaste a infância não pelos pecados que nela brotam, mas pela humildade que dela pode nascer — quando disseste: “Dos tais é o Reino dos Céus” (Mt 19.14).

31 - Tudo de bom em mim veio de Ti
(01) E, ainda assim, Senhor, a Ti — Criador e Governador do universo, excelentíssimo e sumamente bom — já Te eram devidos louvores, mesmo que me tivesses concedido apenas a infância. Pois mesmo então, eu existia, eu vivia, eu sentia. (02) Havia em mim um instinto que buscava o meu bem, reflexo daquela Unidade misteriosa da qual procedo. Por meio do sentido interior, eu regulava meus próprios sentidos. E mesmo nas pequenas ações e pensamentos, eu já começava a amar a verdade, a detestar o engano, a buscar consolo na amizade, a rejeitar a dor e a feiura, e a desejar o saber. (03) Que maravilha era tudo isso numa criatura tão pequena! Que mistério digno de admiração! Mas tudo isso, Senhor, veio de Ti — eu mesmo não poderia ter me dado nada disso. São dons Teus, e são bons. E porque são bons, Aquele que os deu é ainda melhor — Tu és o meu bem. (04) Por isso, exulto diante de Ti por todos esses dons que recebi, mesmo ainda menino. Pois o meu pecado foi tentar encontrar em mim mesmo, ou nos outros, as alegrias, as verdades e a grandeza que só em Ti existem plenamente. E assim, caí em confusão, dor e engano. (05) Graças Te dou, ó meu Deus — minha alegria, minha glória, minha esperança! Agradeço-Te pelos Teus dons, mas Te peço: guarda-os em mim. Pois se Tu os preservares, também me preservarás. E tudo aquilo que me deste florescerá, amadurecerá, será levado à perfeição — e eu estarei Contigo, pois até o existir Tu me concedeste.


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